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Vinte e quatro horas

5 de maio de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Casais

O Daniel trabalha numa plataforma de petróleo na Bacia de Campos. Vinte e um dias embarcado, vinte e um dias em casa. Depois de seis anos de casamento, eu já estava acostumada com a rotina. Mas acostumada não quer dizer que fique mais fácil. Os vinte e um dias longe são longos. As noites são frias.

Daquela vez, eu resolvi preparar uma recepção diferente.

Pedi folga no trabalho. Mandei as crianças para a casa da minha mãe. Fiz compras para um dia inteiro: vinho, frutas, queijos, chocolate, aquele pão que ele adora. Desliguei o telefone fixo. Arrumei o quarto com lençóis novos. E escrevi um cronograma.

Quando ele abriu a porta, às dez da manhã, cansado da viagem de helicóptero e de ônibus, com a mala pesada, eu estava esperando na sala. Com um papel na mão.

— O que é isso? — ele perguntou, largando a mala.

— O cronograma das próximas vinte e quatro horas.

Ele pegou o papel e leu em voz alta.

— "Dez horas: banho quente. Juntos." "Onze horas: café da manhã na cama." "Meio-dia: ..." — Ele parou e me olhou, arregalando os olhos. — Isso aqui está escrito mesmo?

— Está.

— "Duas da tarde: ..." — Ele ficou vermelho. — Meu Deus. "Quatro da tarde: cochilo, para recuperar as forças." "Seis da tarde: jantar à luz de velas." "Oito da noite: ..." "Dez da noite: ..." — Ele baixou o papel. — Isso é sério?

— Muito sério. E é proibido sair de casa.

— E as crianças?

— Na minha mãe. Até amanhã às dez.

Ele largou o papel no chão, me pegou no colo, e a gente foi para o banho. Às dez horas em ponto.

O cronograma foi cumprido à risca. Quase. O banho demorou mais do que o previsto. O café da manhã na cama virou outra coisa antes de terminar. O item do meio-dia foi antecipado para as onze e meia. O das duas da tarde, ele pediu para repetir. O cochilo das quatro durou só vinte minutos, porque ele acordou e disse que tinha recuperado as forças.

Às seis, a gente jantou à luz de velas, na mesa da cozinha, ele de cueca e eu com a camisa dele. Rimos, conversamos, ele me contou das tempestades na plataforma e eu contei das travessuras das crianças. Ele disse que sonhava comigo toda noite no beliche apertado da plataforma.

— Sonhava o quê? — eu perguntei.

— Com isso. Exatamente isso.

Os itens das oito e das dez da noite foram cumpridos. O da meia-noite, que não estava no cronograma, ele mesmo inventou. O das duas da manhã também.

Às dez da manhã do dia seguinte, minha mãe tocou a campainha com as crianças. A gente estava dormindo, abraçados, exaustos.

— Vocês estão com uma cara péssima — minha mãe disse, quando eu abri a porta de roupão.

— A gente não dormiu muito.

Ela me olhou, olhou para o Daniel, de cabelo bagunçado no corredor, e sorriu.

— Ah. Bem-vindo de volta, genro.

Agora, a cada embarque, eu preparo um cronograma novo. Ele leva o anterior na mala, dobrado, para ler na plataforma. Diz que os vinte e um dias passam mais rápido assim.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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