Lua de mel atrasada
A gente casou correndo, no cartório, com dois amigos de testemunha e um almoço num restaurante por quilo. Não teve festa nem lua de mel. "Um dia a gente faz", o Paulo dizia. Seis anos depois, esse dia chegou: uma pousada pé na areia em Jericoacoara, cinco noites, sem filhos, sem celular de trabalho.
O quarto tinha uma rede na varanda, uma banheira de pedra ao ar livre e uma cama enorme com mosquiteiro branco. Assim que a moça da recepção fechou a porta, o Paulo me olhou com uma cara que eu não via havia tempo.
— Seis anos de atraso, dona Renata. Vamos ter que compensar com juros.
— Juros compostos ou simples? — brinquei.
— Compostos. Todos os dias. Várias vezes por dia.
No primeiro dia, a gente nem viu o famoso pôr do sol da duna. Ficamos no quarto, redescobrindo um ao outro sem pressa, sem o barulho das crianças no quarto ao lado, sem o despertador das seis. Eu tinha esquecido como era ser olhada daquele jeito, como uma mulher e não como a mãe, a dona da casa, a que resolve tudo.
No segundo dia, tomamos banho de mar à noite, só os dois, com a lua cheia iluminando a praia vazia. O Paulo me abraçou por trás na água morna e sussurrou umas coisas que me fizeram olhar para os lados para ver se ninguém estava ouvindo.
— Paulo! A gente está na praia!
— Uma praia deserta. Às onze da noite. Com a minha esposa de biquíni. O que você queria que eu pensasse?
Voltamos para a pousada molhados, rindo, tropeçando na areia. A banheira de pedra da varanda ganhou finalmente o uso que merecia, debaixo de um céu tão estrelado que parecia cenário.
No terceiro dia, eu comprei uma lingerie de renda numa lojinha da vila. Branca, delicada, quase transparente. "Para a noiva", disse a vendedora, sem saber que a noiva tinha seis anos de casada. À noite, esperei o Paulo voltar do banho deitada na cama com mosquiteiro. Ele parou na porta, com a toalha na cintura, e ficou um tempo só olhando.
— Agora sim parece lua de mel — ele disse, com a voz falhando.
Os vizinhos de quarto, um casal de argentinos, nos cumprimentavam no café da manhã com um sorrisinho cúmplice. No último dia, o rapaz piscou para o Paulo e disse, num portunhol carregado: "Muy buena la luna de miel, ¿no?"
Muito boa. Tão boa que a gente decidiu: todo ano, uma lua de mel. Sem desculpa, sem atraso. Juros compostos.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
