Aniversário de dez anos
Dez anos de casados e o Rodrigo achava que ia ganhar uma camisa social e um jantar no restaurante de sempre. Ele merecia mais. Nós merecíamos mais. Então eu deixei um bilhete grudado no espelho do banheiro, escrito com o meu batom: "Hotel Lumière, quarto 1204, 21h. Venha de terno. Não me ligue."
Passei a tarde me arrumando como não fazia há anos. Depilação, perfume novo, cabelo escovado, e um vestido vermelho que eu tinha comprado e escondido no fundo do armário, porque achava ousado demais para uma mãe de dois. O decote ia até onde não devia. A fenda, então, nem se fala.
Às nove em ponto, ouvi a batida na porta. Eu estava na varanda, de costas, taça de espumante na mão, a cidade toda acesa lá embaixo. Não me virei.
— A porta está aberta — falei, com a voz mais rouca que consegui.
Ele entrou devagar. Senti o olhar dele percorrendo o vestido inteiro, de cima a baixo, parando na fenda.
— Quem é você e o que fez com a minha esposa? — ele brincou, afrouxando a gravata.
— Hoje eu não sou sua esposa. — Virei, finalmente. — Sou só uma mulher que você acabou de conhecer no bar do hotel. Meu nome é Valentina. E você, quem é?
Ele entendeu o jogo na hora. Dez anos de casamento servem para isso também.
— Eduardo. Advogado. Estou na cidade só esta noite.
— Que pena — eu disse, me aproximando. — Uma noite é muito pouco para tudo que eu tenho em mente.
Fingimos que éramos dois estranhos. Ele me ofereceu uma bebida que já estava na minha mão, elogiou meus olhos como se nunca tivesse reparado neles, perguntou se eu era casada. Mostrei a mão sem aliança, porque tinha tirado de propósito.
— Sou livre — menti, com gosto.
— Então não vou me sentir culpado por isso — ele disse, e me puxou pela cintura com uma firmeza que eu não sentia havia muito tempo.
O beijo foi de quem tinha saudade. As mãos dele acharam o zíper das costas como se conhecessem o caminho, e conheciam. Mas tudo parecia novo: o quarto estranho, o vestido proibido, a cidade inteira lá embaixo assistindo pela varanda aberta. Ele sussurrou no meu ouvido o que o tal Eduardo ia fazer comigo, e eu ri de nervoso, porque o Rodrigo nunca tinha falado daquele jeito.
Apaguei a luz da varanda. Algumas comemorações não precisam de testemunhas.
No café da manhã, ele colocou a aliança de volta no meu dedo, com o maior cuidado.
— Valentina, foi um prazer. Mas acho que vou ficar com a minha esposa mesmo.
— Ela vai adorar saber disso — respondi. — Ela já reservou o mesmo quarto para o ano que vem.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
