BonecaHot Acompanhantes

Vinho na adega

8 de setembro de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Encontros

Fui sozinha para Bento Gonçalves, num tour de vinícolas que eu tinha prometido a mim mesma depois de terminar um namoro de cinco anos. O grupo de turistas era de casais e aposentados, e eu era a única solteira, de vestido florido, chapéu de palha e uma vontade enorme de esquecer.

Na terceira vinícola do dia, o enólogo que conduziu a degustação se chamava Matteo. Neto de italianos, olhos verdes, sotaque gaúcho carregado e um jeito de falar dos vinhos como se estivesse falando de mulheres.

— Esse aqui é encorpado, intenso, com taninos marcantes — ele dizia, girando a taça. — Precisa de tempo para abrir. Igual às coisas boas da vida.

Ele olhava para mim quando dizia essas coisas. Eu tinha certeza. No fim da degustação, enquanto o grupo ia para a loja comprar garrafas, ele se aproximou.

— Você gostou do Merlot reserva?

— Adorei. É o melhor que eu já provei.

— Então você precisa conhecer onde ele descansa. A adega subterrânea não está aberta para os turistas. Mas para você eu abro.

Desci com ele uma escada de pedra estreita até uma adega enorme, escura, iluminada só por luminárias amarelas. Barris de carvalho enfileirados até onde a vista alcançava, um cheiro de madeira e vinho que entrava pela pele, e um silêncio absoluto. A temperatura era bem mais fria lá embaixo, e eu me arrepiei.

— Está com frio? — ele perguntou.

— Um pouco.

Ele tirou o casaco e colocou nos meus ombros, devagar, as mãos parando um pouco mais do que precisava. Depois tirou uma garrafa de uma prateleira, sem rótulo.

— Safra de 2015. Não está à venda. Só para ocasiões especiais.

— E essa é uma ocasião especial?

— Vai ser.

Ele abriu a garrafa e serviu numa única taça. Me deu para provar. O vinho era denso, aveludado, perfeito. Depois ele pegou a taça da minha mão, bebeu do mesmo lugar onde eu tinha bebido e me beijou, com o gosto do vinho ainda na boca.

O casaco dele caiu no chão de pedra. As costas encostaram num barril de carvalho, frio e áspero, enquanto o resto do meu corpo esquentava. Ele beijava meu pescoço e falava em italiano umas coisas que eu não entendia, mas entendia perfeitamente. O vestido florido não ofereceu muita resistência.

— E o grupo? — perguntei, ofegante. — O ônibus vai sair.

— O ônibus sai às cinco. São três e meia.

Subimos às quatro e cinquenta, os dois com cara de quem tinha provado muitos vinhos. A guia do grupo me olhou desconfiada. Eu comprei seis garrafas do Merlot reserva na loja, com o casaco dele ainda nos ombros.

Voltei a Bento Gonçalves mais quatro vezes naquele ano. Nunca mais fiz o tour com o grupo.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

Leia também

Ver todos →