Corrida de madrugada
Eram duas da manhã quando eu saí da festa de aniversário da minha amiga, com o salto na mão e o vestido amassado. Pedi um carro pelo aplicativo e, quando ele chegou, conferi a placa e o nome: Marcos, nota 4,98. Entrei no banco de trás meio tonta, meio feliz, com aquela vontade de conversar que a cerveja dá.
— Noite boa? — ele perguntou, me olhando pelo retrovisor.
— Ótima. Mas acabou cedo demais.
Ele riu. Tinha uma voz grave, daquelas de locutor de rádio, e um braço tatuado apoiado no volante que eu não conseguia parar de olhar.
— Duas da manhã é cedo para você?
— Para quem não tem ninguém esperando em casa, é.
O olhar dele no retrovisor demorou um segundo a mais do que devia. Eu cruzei as pernas devagar, e o vestido subiu um pouco. Não arrumei.
A conversa foi ficando cada vez mais solta. Ele contou que dirigia de madrugada porque de dia trabalhava como bartender, que estava solteiro havia um ano e que as passageiras da madrugada eram as mais interessantes. Eu contei que tinha terminado um namoro chato e que estava decidida a ter um ano inteiro de aventuras.
— E já começou? — ele perguntou.
— Estou começando agora — respondi, me inclinando entre os dois bancos para ver melhor o rosto dele.
O carro parou num sinal vermelho, numa avenida vazia. Ele virou para trás, e nossos rostos ficaram a um palmo de distância. Eu conseguia sentir o cheiro do perfume amadeirado dele.
— Eu não posso ficar com passageira — ele disse, olhando para a minha boca.
— A corrida termina em três minutos. Depois disso eu não sou mais passageira.
O sinal abriu e ele dirigiu mais rápido do que o necessário. Na porta do meu prédio, ele encerrou a corrida no aplicativo, desligou o carro e me olhou.
— Pronto. Agora você não é mais passageira.
Eu passei para o banco da frente pela porta, porque não tive paciência de dar a volta. O beijo foi urgente, as mãos dele subindo pelas minhas coxas, o vidro embaçando em segundos. Quando o porteiro acendeu a luz da guarita, a gente caiu na gargalhada.
— Sobe? — perguntei.
— Só se você me der cinco estrelas.
Dei cinco estrelas, uma gorjeta generosa e um comentário: "Motorista muito atencioso, chegou no destino com excelência." Ele saiu de casa às sete da manhã, a tempo de pegar o turno da padaria do bairro para o café. E eu passei o resto daquele ano pedindo carro às duas da manhã, torcendo para cair o Marcos de novo.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
