O personal das seis da manhã
Eu nunca fui de acordar cedo. Até contratar o Diego como personal trainer. Ele só tinha horário às seis da manhã, e eu, que antes chegava atrasada até no almoço de domingo, passei a pular da cama às cinco, passar perfume para ir à academia e escolher o top mais justo da gaveta.
A academia do condomínio ficava vazia naquele horário. Só nós dois, o ar-condicionado no máximo e aquele espelho enorme que ocupava a parede inteira. O Diego era daqueles homens que parecem esculpidos: ombro largo, braço que mal cabia na manga da camiseta e um sorriso de canto que me desconcentrava na contagem das séries.
— Mais uma, Camila. Força. Não desiste agora.
— Você fala isso para todas as alunas? — provoquei, ofegante, no meio do agachamento.
— Só para as que eu quero ver terminar o treino suadas.
Fingi que não ouvi. Mas meu rosto ficou vermelho, e não foi pelo exercício.
No dia do treino de glúteos, ele resolveu corrigir minha postura. Ficou atrás de mim, colocou as mãos na minha cintura e foi guiando o movimento, devagar, para baixo e para cima. Pelo espelho, eu via o rosto dele perto do meu pescoço, a concentração fingida, a respiração dele batendo na minha nuca.
— Assim. Sente o músculo trabalhando?
— Estou sentindo bastante coisa — respondi, encarando o reflexo dele.
Ele parou. As mãos continuaram na minha cintura. Por alguns segundos, a academia ficou tão silenciosa que dava para ouvir a esteira desligada estalando.
— Camila… isso não é muito profissional.
— Então para de ser profissional por cinco minutos.
Ele virou meu corpo de frente para ele, me encostou no espelho gelado, e o contraste do vidro frio nas minhas costas com o calor das mãos dele foi a coisa mais gostosa que eu já tinha sentido numa academia. O beijo tinha gosto de café e de pressa. Ele me levantou como se eu fosse um dos halteres leves e me colocou sentada no banco de supino.
— E se alguém entrar? — sussurrei, já puxando a camiseta dele.
— Ninguém em sã consciência acorda antes das seis — ele riu. — Só você, por minha causa.
Os cinco minutos viraram quarenta. O treino de glúteos ficou para outro dia e o banco de supino nunca mais foi o mesmo para mim.
Hoje eu treino com o Diego três vezes por semana. Os outros moradores do prédio dizem que eu estou ótima, que dá para ver o resultado do esforço. Eu concordo. Só não conto que o melhor exercício acontece depois que a gente desliga a luz da academia e tranca a porta por dentro.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
