Viagem de formatura
A comissão organizou o reencontro de dez anos da turma de medicina num resort em Mata de São João, na Bahia. Três dias de festa, praia, open bar e nostalgia. Metade da turma levou marido ou esposa. Eu fui sozinha. O Tiago também.
Na faculdade, o Tiago era o mais tímido da sala. Sentava no fundo, não ia nas festas, tirava as melhores notas e corava quando alguém falava com ele. Eu sentava duas fileiras na frente, e às vezes, quando virava, pegava ele me olhando. Ele baixava os olhos na hora. Seis anos assim.
No resort, ele estava irreconhecível. Bronzeado, ombros largos de quem nada, cabelo curto, camisa de linho aberta no peito. Cirurgião cardíaco num hospital de Salvador, divorciado, sem filhos. Mas quando eu cheguei perto da mesa dele no jantar de boas-vindas, ele corou. Igualzinho.
— Fernanda — ele disse. — Você não mudou nada.
— Você mudou tudo. Menos isso.
— Isso o quê?
— Você ainda fica vermelho quando eu falo com você.
Ele riu, ficando ainda mais vermelho.
— Algumas coisas não mudam.
Passamos a noite conversando. Descobri que ele tinha sido apaixonado por mim os seis anos de faculdade. Que tinha escrito uma carta no último ano e nunca entregado. Que tinha ido à formatura só para me ver dançar.
— Por que você nunca falou nada?
— Você namorava o capitão do time de vôlei.
— Eu terminei com ele no segundo ano.
— Eu não sabia.
— Você nunca perguntou.
No segundo dia, teve festa na praia. Fogueira, luau, violão, a turma inteira cantando músicas da época da faculdade. No meio da festa, o Tiago me chamou para caminhar. Andamos pela areia, longe da fogueira, até as luzes sumirem e ficar só a lua.
— Eu quero recuperar o tempo perdido — ele disse.
— Quanto tempo?
— Seis anos. Mais dez. Dezesseis.
— É muito tempo para recuperar em uma noite.
— Então a gente começa agora.
Ele me beijou. O mais tímido da turma beijava como quem tinha passado dezesseis anos ensaiando. A gente deitou na areia, longe de todo mundo, e o barulho das ondas abafava tudo. Depois, quando a areia ficou desconfortável, a gente correu para o quarto dele, rindo, de mãos dadas, descalços, e o resto da turma viu e assobiou.
No terceiro dia, no café da manhã, a turma inteira aplaudiu quando a gente chegou junto. O Tiago ficou vermelho da cabeça aos pés. Eu peguei a mão dele e fiz uma reverência.
Na festa de quinze anos de formatura, a gente foi casado. Ele ainda fica vermelho quando eu falo com ele de um certo jeito. Eu adoro.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
