Uma noite na casa de praia
A casa de praia em Búzios era do pai da Bruna, e a ideia era simples: quatro amigos, um fim de semana, muita caipirinha e zero responsabilidade. Eu, a Bruna, o Felipe e o Léo. Os quatro solteiros, os quatro com mais de trinta, os quatro fingindo havia anos que não existia uma tensão estranha naquele grupo.
No sábado à noite, caiu um temporal. Faltou luz, o celular sem sinal e a única coisa que sobrou foi uma garrafa de cachaça boa e um baralho velho. Até que a Bruna, com aquele olhar de quem já tinha bebido o suficiente, sugeriu:
— Verdade ou consequência. Igual na época da faculdade.
Começou inocente. O Léo confessou que já tinha mandado nude por engano para a chefe. O Felipe teve que dançar funk em cima da mesa. Eu tive que contar o lugar mais estranho onde já tinha beijado alguém, e foi no provador de uma loja de shopping, o que arrancou gritos de todo mundo.
Aí chegou a vez da Bruna perguntar para mim.
— Verdade ou consequência, Lari?
— Consequência — falei, corajosa demais por causa da cachaça.
Ela sorriu daquele jeito.
— Beija quem você sempre quis beijar dessa mesa.
O silêncio foi absoluto. Só a chuva batendo no telhado e as velas tremendo. Eu podia ter escolhido o Léo, que era o óbvio. Mas olhei para o Felipe, que sempre tinha sido o mais quieto, o mais misterioso, aquele que me olhava de canto quando achava que eu não estava vendo.
Atravessei a sala de joelhos no tapete e beijei o Felipe. Devagar no começo. Depois nada devagar. Quando a gente se separou, a Bruna estava sentada no colo do Léo, os dois rindo como se tivessem esperado aquilo a vida inteira.
— Acho que o jogo acabou — o Léo disse.
— Acho que o jogo acabou de começar — corrigiu a Bruna.
O resto da noite foi uma sucessão de consequências que ninguém precisou sortear. A casa tinha três quartos, mas acho que só usamos dois. A chuva não parou até de manhã, e ainda bem, porque ninguém queria sair daquela casa.
No domingo, voltamos para a cidade em silêncio, cada um olhando pela janela do carro com um sorriso bobo. No grupo do WhatsApp, a Bruna mandou só uma mensagem: "Mesma casa, próximo feriado?" Os quatro responderam em menos de um minuto.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
