Carnaval em Olinda
Era meu primeiro carnaval em Olinda e eu fui com tudo: fantasia de diabinha vermelha, chifrinhos de lantejoula, rabo de cetim e um short tão curto que a minha mãe teria um ataque se visse. A ideia era simples: curtir, beijar na boca e não lembrar de nada na quarta-feira de cinzas.
No primeiro bloco, reparei nele. Fantasia de pierrô, todo de branco, com uma máscara que cobria metade do rosto e deixava só a boca à mostra. Uma boca bonita, que sorria para mim no meio da multidão. Eu pulava, ele pulava do meu lado. Eu ia para a esquerda, ele aparecia na esquerda.
— Você está me seguindo, pierrô? — gritei, por cima do frevo.
— Estou. Pierrô sempre segue a colombina.
— Eu não sou colombina. Sou diabinha.
— Melhor ainda — ele riu. — Sempre quis ser tentado.
No segundo bloco, ele me ofereceu uma cerveja gelada. No terceiro, segurou minha cintura numa ladeira lotada para eu não cair, e esqueceu de soltar. A multidão nos empurrava um contra o outro, a música ensurdecedora, o calor de quarenta graus, o suor misturado com glitter. Em algum momento, entre um frevo e outro, eu virei e beijei aquela boca mascarada.
Foi um beijo de carnaval, com gosto de cerveja e pressa. Mas tinha algo mais. Ele segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou de novo, mais devagar, como se a ladeira tivesse ficado vazia.
— Tira a máscara — pedi.
— Ainda não. Carnaval é para ser mistério.
Ele me puxou pela mão para uma rua lateral, estreita, de casinhas coloridas. A música ficou distante. Encostei numa parede azul descascada e ele me encostou junto, as mãos descobrindo onde terminava o short curto de diabinha. Eu ria de nervoso, olhando para os lados, mas não queria que ele parasse. O rabo de cetim acabou enroscado no braço dele, e ele brincou que agora eu era prisioneira do pierrô.
— Onde você está hospedada? — ele perguntou no meu ouvido.
— Numa pousada aqui perto. Por quê?
— Porque o que eu quero fazer com essa diabinha não dá para fazer numa rua de Olinda.
A pousada ficava a duas ladeiras dali. Subimos correndo, de mãos dadas, rindo como dois adolescentes. Ele só tirou a máscara no quarto, com a luz apagada, e eu só vi o rosto dele de verdade quando o sol entrou pela janela na manhã seguinte. Era ainda mais bonito do que eu tinha imaginado.
Na quarta-feira de cinzas, eu lembrava de tudo, ao contrário do plano. Cada detalhe. E até hoje, quando escuto um frevo, procuro um pierrô na multidão.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
