Troca de casais
A gente conhecia o Rodrigo e a Talita havia dez anos. Viajávamos juntos, os filhos estudavam na mesma escola, os churrascos de domingo eram sagrados. Eu e o Pedro sempre achamos os dois bonitos. Nunca tínhamos dito isso em voz alta.
Até um fim de semana numa casa de campo em Ibiúna, sem filhos, que tinham ficado com os avós. Depois do jantar, na frente da lareira, a Talita abriu a terceira garrafa de vinho e soltou, com a cara mais séria do mundo:
— Vocês já pensaram em troca de casais?
O Pedro engasgou com o vinho. Eu dei risada, nervosa. O Rodrigo ficou vermelho e deu um tapa no braço dela.
— Talita!
— O quê? A gente fala disso há meses, amor. Eu só estou perguntando.
Fez-se um silêncio enorme. A lenha estalava na lareira. Olhei para o Pedro e ele estava me olhando com uma pergunta nos olhos. A gente também falava disso havia meses, sem coragem de admitir.
— Já pensamos — eu disse, finalmente.
A Talita sorriu como quem ganhou uma aposta. O Rodrigo arregalou os olhos. O Pedro segurou minha mão.
— E aí? — a Talita perguntou. — O que vocês acham?
— Acho que precisamos de regras — o Pedro disse.
Passamos uma hora conversando, sentados no tapete na frente da lareira, como se estivéssemos planejando uma viagem. O que podia, o que não podia. Que tudo seria no mesmo ambiente, todos juntos, ninguém escondido. Que qualquer um podia parar a qualquer momento. Que a amizade estava acima de tudo, e que no dia seguinte ninguém ia agir de forma estranha.
— E se alguém se arrepender? — eu perguntei.
— A gente conversa — o Rodrigo disse. — Como sempre conversamos.
Quem começou foi a Talita. Levantou, foi até o Pedro e estendeu a mão para ele. O Pedro me olhou. Eu fiz que sim com a cabeça. Ela sentou no colo dele e o beijou, devagar, e eu senti uma pontada estranha no peito, que não era ciúme, era outra coisa.
O Rodrigo chegou perto de mim, meio tímido.
— Tudo bem?
— Tudo bem — eu disse, e puxei ele pela camisa.
A noite foi estranha, divertida, intensa e carinhosa. Teve momentos em que eu olhava para o Pedro do outro lado do tapete e a gente sorria um para o outro, cúmplices. Teve momentos em que todo mundo parava para rir de alguma coisa. Teve um momento em que a Talita e eu nos olhamos e descobrimos que a regra também valia entre nós duas. A lareira se apagou e ninguém se levantou para colocar mais lenha.
No dia seguinte, no café da manhã, ficou um silêncio constrangido por uns cinco minutos. Até que o Rodrigo, passando manteiga no pão, disse:
— Então... próximo feriado, na nossa casa?
Os quatro caíram na gargalhada. A amizade não acabou. Ficou ainda mais forte. E os churrascos de domingo continuam sagrados, mas agora alguns deles terminam bem mais tarde.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
