Trinta anos depois
Em 1994, eu e o Arnaldo passamos a lua de mel num hotel em Campos do Jordão. Um chalé com lareira, colcha de crochê e uma banheira de louça antiga. Éramos dois jovens de vinte e poucos anos, sem dinheiro, apaixonados, e foi a semana mais feliz da nossa vida.
Trinta anos depois, os filhos criados, a casa quieta, o Arnaldo apareceu na cozinha numa manhã de domingo com dois papéis na mão.
— O que é isso? — perguntei.
— Reserva. No mesmo hotel. No mesmo chalé. Mês que vem.
— Você está brincando.
— Bodas de pérola. Trinta anos. A gente merece.
O hotel tinha mudado. Estava mais moderno, com spa e piscina aquecida. Mas o chalé número sete ainda existia. A lareira era a mesma. A colcha de crochê tinha sido substituída por um edredom branco, mas a banheira de louça ainda estava lá, um pouco mais velha, como a gente.
— Lembra? — o Arnaldo disse, parado na porta do banheiro.
— Como eu ia esquecer?
Na lua de mel, a gente tinha passado uma noite inteira naquela banheira, com espuma, vinho barato e risadas. Tinha molhado o chão inteiro do banheiro e o gerente do hotel tinha batido na porta para reclamar da água escorrendo para o corredor.
— A gente ainda cabe? — ele perguntou.
— Só tem um jeito de descobrir.
Enchemos a banheira com água quente e espuma. Desta vez, o vinho era bom. Ele tirou a roupa primeiro e entrou na água com um gemido de alívio, porque o joelho doía. Eu tirei a minha devagar, com ele me olhando da banheira.
— Você ainda tem aquela pinta no quadril — ele disse.
— Você ainda tem aquela cicatriz do apêndice.
— Você está mais bonita do que em 1994.
— Você está mais careca.
Ele riu e me puxou para a água. A gente cabia, sim. Meio apertado, meio desajeitado, com os joelhos esbarrando e a espuma escorrendo pelo chão. Rimos tanto quanto em 1994. Ele me beijou com gosto de vinho bom e eu senti o mesmo frio na barriga de trinta anos antes.
— Sabe o que eu aprendi em trinta anos? — ele disse, com a testa encostada na minha.
— O quê?
— Que eu te conheço inteira. E mesmo assim, você ainda me surpreende.
Saímos da banheira e fomos para a frente da lareira. O corpo tinha mudado. O desejo não. Ele ainda sabia exatamente onde beijar para me fazer suspirar, e eu ainda sabia o que dizer no ouvido dele para fazê-lo perder o fôlego. Trinta anos de prática. Trinta anos de intimidade. E uma noite que foi tão boa quanto a primeira.
Na manhã seguinte, o gerente bateu na porta do chalé.
— Desculpe incomodar, senhor. Mas tem água escorrendo para o corredor.
O Arnaldo me olhou e nós dois caímos na gargalhada. Trinta anos depois, algumas coisas não mudam.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
