Tatuagem nova
Eu queria fazer uma tatuagem havia anos, mas sempre adiava. No meu aniversário de trinta, decidi: uma flor de lótus pequena, delicada, no quadril, num lugar que só quem eu quisesse ia ver.
O estúdio indicado por uma amiga ficava num sobrado antigo no centro, cheio de plantas, quadros e música indie tocando baixinho. A tatuadora se chamava Luna. Braços fechados de tatuagem, piercing no septo, cabelo raspado de um lado e um sorriso que me desarmou na hora.
— Quadril, né? — ela disse, olhando o desenho. — Vai ter que deitar de lado e baixar a calça um pouco. Tudo bem?
— Tudo bem — respondi, tentando parecer tranquila.
Deitei na maca, baixei a calça jeans até o meio da coxa e virei de lado. A Luna puxou o banquinho para perto, calçou as luvas pretas e começou a limpar a pele com um algodão gelado. Senti um arrepio que não teve nada a ver com o frio.
— Relaxa — ela disse, a mão espalmada no meu quadril. — Está muito tensa. Vai doer mais se você ficar assim.
— É minha primeira vez.
— Eu sei. Dá para ver. — Ela riu. — Pode deixar que eu vou com calma.
A máquina começou a zumbir. A dor era menor do que eu esperava, uma ardência gostosa, ritmada. A Luna trabalhava em silêncio, concentrada, com a respiração tranquila bem perto da minha pele. De vez em quando, passava o papel-toalha para limpar a tinta e soprava de leve. Cada sopro me deixava toda arrepiada.
— Está doendo? — ela perguntou, depois de uns quarenta minutos.
— Não. Está... bom, na verdade.
Ela parou a máquina. Olhou para mim por cima dos óculos de proteção.
— Bom quanto?
Eu não respondi. Só sustentei o olhar. Ela tirou as luvas pretas, uma de cada vez, sem pressa nenhuma, e passou a ponta dos dedos em volta da flor recém-desenhada, com cuidado para não encostar na tinta fresca.
— A tatuagem está pronta — ela disse. — Mas a sessão pode durar mais um pouco.
Ela trancou a porta do estúdio e virou a plaquinha para "Fechado". A música indie continuou tocando. A maca, que até então tinha sido só lugar de dor e tinta, virou outra coisa. A Luna sabia tocar uma pele com a mesma precisão com que desenhava, e eu descobri, aos trinta anos, que ainda tinha muitas primeiras vezes pela frente.
A flor de lótus cicatrizou linda. Só três pessoas no mundo já viram. Uma delas desenhou. Volto ao estúdio a cada seis meses para "retocar". A Luna diz que a tinta não precisa de retoque nenhum. Eu volto mesmo assim.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
