Sessão de fotos no estúdio
Quando você trabalha como acompanhante, as fotos são tudo. São elas que fazem o cliente parar de rolar a página e mandar a primeira mensagem. Por isso, uma vez por ano, eu investia num ensaio profissional. Naquele ano, fui indicada para um fotógrafo novo, o Bernardo.
O estúdio dele era num galpão reformado, com pé-direito alto, cortinas de veludo e uma cama redonda de lençol de cetim preto no centro. Ele era tímido no começo, falava baixo, pedia licença para ajustar meu cabelo.
— Você já fotografou acompanhantes antes? — perguntei, enquanto trocava de roupa atrás de um biombo.
— Algumas. Mas nenhuma que eu tenha ficado nervoso de fotografar.
— Por que eu deixo você nervoso?
— Porque você olha para a lente como se soubesse exatamente o que eu estou pensando.
Saí do biombo de lingerie vermelha e salto agulha. Ele quase derrubou a câmera.
A sessão começou profissional. Ele me posicionava, ajustava as luzes, pedia ângulos. Mas aos poucos as instruções foram ficando mais lentas, as pausas mais longas. Ele chegava perto para ajustar uma alça e demorava. Me pedia para deitar de um jeito e ficava me olhando antes de clicar.
— Você está pensando demais — eu disse, de bruços no cetim preto.
— Em quê?
— Em mim. E não na foto.
Ele baixou a câmera. Respirou fundo.
— Eu sei que você trabalha com isso. E eu sei que eu deveria ser profissional. Mas faz uma hora que eu não consigo pensar em mais nada.
— Bernardo. — Virei de costas no cetim e me apoiei nos cotovelos. — Eu cobro por hora. Mas hoje quem está pagando sou eu, para você me fotografar.
— E daí?
— E daí que hoje eu escolho o que quero. E eu quero você.
Ele colocou a câmera no tripé, sem desligar. A luz vermelha da gravação continuava acesa quando ele subiu na cama redonda e me beijou como se estivesse com medo de que eu sumisse. O cetim era escorregadio, e a gente escorregou muito, rindo, se agarrando. Pela primeira vez em anos, eu não estava atuando. Estava só sentindo.
O ensaio acabou duas horas depois do previsto. As fotos ficaram as melhores que eu já tive: uma luz diferente no meu rosto, um brilho nos olhos que nenhum Photoshop consegue criar. Meus clientes perguntam até hoje quem foi o fotógrafo.
A câmera que ficou ligada no tripé gravou tudo. O Bernardo me entregou o cartão de memória sem nem olhar o conteúdo. "Isso é seu", ele disse. Eu guardei. E de vez em quando, quando estou sozinha, assisto e lembro que eu também mereço ser desejada sem ninguém pagar por isso.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
