A vizinha do 302
Fazia três semanas que eu ouvia o salto dela no corredor, sempre às onze da noite. Toc, toc, toc, firme, sem pressa nenhuma, como quem sabe que está sendo escutada. Depois vinha o perfume, doce e meio apimentado, que ficava preso no elevador por uns bons minutos depois que ela descia. Eu morava no 301. Ela, no 302. Uma parede fina separava a minha insônia da vida misteriosa dela.
Naquela sexta, o prédio inteiro ficou no escuro. Desci para ver o quadro de luz e encontrei a vizinha parada no meio da escada, de vestido preto colado, iluminando os degraus com a lanterna do celular.
— Graças a Deus, um ser humano — ela riu. — Me acompanha até lá em cima? Tenho pavor de escuro.
Ofereci o braço, como um cavalheiro. Ela aceitou, mas não do jeito educado. Encaixou o corpo inteiro no meu, o quadril roçando a minha perna a cada degrau. No segundo andar, tropeçou, ou fingiu tropeçar, e eu segurei a cintura dela. Ela não pediu que eu soltasse.
— Você é o do 301, né? O que fica acordado até tarde ouvindo música baixinho.
— E você é a do salto.
— Ah, então você presta atenção em mim — ela disse, chegando a boca perto da minha orelha. — Eu sabia.
No terceiro andar, a respiração dela já estava diferente. A minha também. A lanterna apontava para o chão e o resto era só calor, perfume e aquele vestido que parecia ter sido costurado no corpo dela. Paramos na porta do 302. Ela procurou a chave na bolsa sem pressa nenhuma, sem tirar os olhos dos meus.
— Sabe o que eu faço quando falta luz? — perguntou.
— Acende uma vela?
— Também. — Ela mordeu o lábio. — Mas antes eu tiro esse vestido, porque fica um calor insuportável sem o ar-condicionado.
A luz voltou de repente, como se o prédio quisesse ver o que ia acontecer. Ficamos os dois ali, perto demais para fingir que era sem querer. Ela girou a chave, abriu a porta e encostou no batente.
— Entra. Eu te devo uma taça de vinho pela escolta… e talvez um pouco mais.
O vinho ficou esquecido em cima da mesa, a garrafa ainda fechada. O vestido preto acabou no braço do sofá, e a vela que ela prometeu acender nunca foi acesa. A parede fina que nos separava foi testemunha de uma noite inteira de barulho, e dessa vez quem reclamou foi o vizinho do 303.
Desde então, quando ouço o salto no corredor às onze, eu nem espero o perfume chegar ao elevador. Deixo a porta entreaberta. Às vezes ela passa direto, só para me provocar. Na maioria das noites, não passa.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
