Fim de expediente no bar
Eu trabalho como bartender num bar de jazz no centro da cidade. Já vi de tudo atrás daquele balcão: noivados, términos, gente chorando no copo, gente rindo até cair. Mas nenhuma cliente me intrigava tanto quanto a moça de quinta-feira.
Ela chegava sempre às dez, de vestido escuro e batom vinho. Sentava na mesma banqueta, no canto do balcão, e pedia um negroni. Ficava horas ali, ouvindo a banda, mexendo no gelo do copo e me olhando enquanto eu preparava os drinques dos outros clientes. Quando a gente fechava, às duas, ela pagava, deixava uma gorjeta generosa e ia embora sem dizer nada além de "boa noite".
Três meses assim. Eu já sabia o nome dela pelo cartão de crédito: Helena. Sabia que ela gostava de casca de laranja queimada no negroni e que cruzava as pernas para o lado do balcão quando a banda tocava as músicas mais lentas.
Numa quinta de chuva, o bar ficou vazio mais cedo. À uma da manhã, só sobrava ela. O baixista guardou o instrumento, o garçom foi embora e eu fiquei ali, limpando copos que já estavam limpos.
— Vai fechar? — ela perguntou.
— Daqui a pouco. Quer a saideira?
— Quero. Mas não quero beber sozinha.
Preparei dois negronis. Saí de trás do balcão e sentei na banqueta ao lado dela pela primeira vez. De perto, ela era ainda mais bonita, e tinha um perfume de baunilha que me deixou meio tonto.
— Três meses — ela disse, girando o copo. — Três meses vindo aqui toda quinta. Você nunca percebeu?
— Percebi que você gosta de negroni.
Ela riu, alto, jogando a cabeça para trás.
— Eu odeio negroni. É amargo demais. Eu pedia porque é o drinque que você demora mais para fazer. Ficava mais tempo te olhando.
Eu quase derrubei o copo. Ela se inclinou na minha direção, colocou a mão na minha coxa e falou baixinho:
— Fecha logo esse bar.
Nunca baixei uma porta de aço tão rápido na vida. Apaguei as luzes do salão, deixei só a do balcão acesa, e ela me puxou pela gravata borboleta do uniforme. O beijo tinha gosto de laranja queimada e de três meses de espera. Ela me sentou na banqueta e subiu no meu colo, o vestido escuro subindo junto, e o balcão onde eu trabalhava todas as noites virou apoio para uma coisa que não tinha nada a ver com drinques.
Saímos do bar às quatro da manhã, a chuva ainda caindo. Ela me deu um beijo no rosto e disse:
— Quinta que vem eu quero um mojito. É mais doce.
Hoje ela não precisa mais esperar o bar fechar. Mas continua vindo às quintas. Eu continuo fazendo o drinque devagar. Só que agora é por outro motivo.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
