Sessão de fotos
Faltava um mês para o aniversário de casamento e eu queria dar ao Marcelo um presente que ele nunca fosse esquecer. Contratei uma fotógrafa especializada em ensaios sensuais, a Bianca, que tinha um estúdio lindo num loft em Pinheiros, todo branco, com cortinas de linho e luz natural entrando pelas janelas enormes.
— Primeira vez? — ela perguntou, quando eu cheguei, tremendo.
— Primeira vez.
— Relaxa. A gente começa devagar. Você vai se sentir a mulher mais bonita do mundo.
Ela me deu uma taça de espumante, colocou uma música baixinha e me ajudou a escolher as peças: um body de renda preta, uma camisa social branca do Marcelo que eu tinha trazido, meias sete-oitavos. Começamos com a camisa. Sentada no parapeito da janela, olhando para fora, a camisa aberta caindo do ombro.
— Linda — a Bianca dizia, clicando. — Agora olha para mim. Pensa nele.
Eu pensava nele. Pensava no jeito que ele me olhava quando eu saía do banho, no jeito que ele me puxava pela cintura na cozinha. E as fotos foram ficando cada vez melhores. Na tela do computador, eu nem me reconhecia. Era uma mulher que eu tinha esquecido que existia.
No meio da sessão, a campainha tocou. A Bianca franziu a testa.
— Não estou esperando ninguém.
Ela foi atender e voltou com uma cara estranha.
— É o seu marido.
Gelei. O Marcelo entrou no estúdio com cara de preocupado, e parou quando me viu. De body de renda, meia sete-oitavos, sentada no sofá de linho branco.
— Eu vi a mensagem da fotógrafa no seu celular — ele disse. — Confirmando o horário. Achei que... sei lá o que eu achei.
— Era para ser surpresa!
Ele ficou me olhando, mudo. A Bianca, com experiência de quem já tinha visto de tudo, sorriu e levantou a câmera.
— Já que ele está aqui... quer fazer umas fotos de casal? Eu faço muito. Fica lindo.
O Marcelo olhou para mim. Eu olhei para ele. Ele tirou o paletó.
As fotos de casal foram as mais bonitas do ensaio. Ele sem camisa, de calça jeans, me abraçando por trás na janela. Eu no colo dele no sofá de linho. Os dois deitados no lençol branco, enroscados, rindo de alguma bobagem. A Bianca clicava e dizia "isso, assim, perfeito". E a cada foto, o clima esquentava mais, até que ela baixou a câmera e começou a guardar o equipamento.
— Acho que terminamos — ela disse, com um sorriso. — O estúdio é meu até as seis. Eu vou tomar um café na esquina. Uma hora, mais ou menos.
Ela saiu e fechou a porta. A gente ficou ali, no estúdio branco, cercado de luz e cortinas de linho. E o lençol branco ficou bem menos arrumado do que na foto.
O álbum chegou duas semanas depois. As fotos ficam numa caixa de madeira trancada no armário. E a Bianca, quando entregou, piscou para mim:
— Na próxima, já marca para os dois.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
