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Saudade de quartel

23 de abril de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Casais

O Rafael é militar. Quando ele foi convocado para uma missão de paz de seis meses no exterior, eu achei que não ia aguentar. A gente estava casado havia dois anos e nunca tinha ficado mais de uma semana separado.

Os seis meses foram difíceis. As ligações eram curtas e cheias de chiado. As mensagens chegavam com dias de atraso. Eu dormia abraçada com a camiseta dele, que foi perdendo o cheiro aos poucos. Contava os dias num calendário na porta da geladeira.

Quando faltava uma semana para ele voltar, eu tive uma ideia. Uma ideia ousada, que eu tinha visto num filme e sempre achei impossível. Fui ao shopping e comprei um sobretudo bege, longo, até os joelhos, com cinto. Um salto alto vermelho. E uma lingerie que eu escolhi com o rosto pegando fogo.

No dia da chegada, eu me arrumei em casa. Coloquei a lingerie. Depois o salto. Depois o sobretudo, bem fechado, com o cinto apertado. Por baixo, mais nada. Me olhei no espelho e quase desisti. Mas eu tinha esperado seis meses.

O aeroporto estava cheio de famílias esperando os militares. Mães, pais, filhos com cartazes, esposas com balões. Eu estava ali, de sobretudo num dia de calor, sentindo cada movimento do tecido contra a pele, com o coração disparado.

Quando ele apareceu no portão de desembarque, de farda, com a mochila nas costas, mais magro, mais queimado de sol, eu corri. Ele largou a mochila e me pegou no colo. Me girou. Me beijou na frente de todo mundo, e as pessoas aplaudiram.

— Que saudade — ele disse, com a voz embargada.

— Você não faz ideia.

— Por que você está de sobretudo? Está trinta graus.

Eu cheguei perto do ouvido dele e sussurrei o que tinha por baixo. Ele ficou branco. Depois vermelho. Depois olhou para o sobretudo, para mim, para o sobretudo de novo.

— Você está falando sério?

— Seríssimo.

— No aeroporto?

— No aeroporto.

— Meu Deus. Cadê o carro?

O caminho do aeroporto até em casa era de quarenta minutos. Ele fez em vinte e cinco, respeitando cada limite de velocidade com um esforço sobre-humano, as mãos apertando o volante. Eu, no banco do carona, abria o cinto do sobretudo um pouquinho, de vez em quando, só para ver a cara dele.

— Para com isso — ele dizia. — Eu vou bater o carro.

— Então dirige olhando para a frente.

— Impossível.

Em casa, ele nem fechou a porta direito. A mochila ficou no chão da entrada. A farda foi ficando pelo corredor. O sobretudo, ele abriu devagar, na frente do espelho da sala, como quem desembrulha o presente que esperou seis meses para receber. E ficou parado, olhando, sem dizer nada, até que eu puxei ele pela gola da camiseta.

Seis meses de saudade foram compensados em uma tarde, uma noite e boa parte da madrugada.

— Você vai ter que fazer isso sempre que eu voltar de missão — ele disse, quando o sol já estava nascendo.

— Você não vai mais para missão nenhuma.

— Então eu vou inventar uma. Só para você ir me buscar de sobretudo.

O sobretudo bege está no armário até hoje. Ele não viajou mais. Mas de vez em quando, numa sexta-feira à noite, eu coloco o sobretudo e espero ele chegar do quartel.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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