Reencontro em Paris
Tínhamos vinte e dois anos quando nos conhecemos num intercâmbio em Paris. Ele era carioca, eu de Belo Horizonte. Seis meses de amor intenso, de vinho barato na beira do Sena, de beijos no metrô, de noites em claro no quarto minúsculo do meu alojamento em Montmartre. No fim do semestre, cada um voltou para a sua cidade e a vida foi separando a gente. Mensagens cada vez mais raras, até que pararam.
Dez anos depois, voltei a Paris a trabalho. No último dia, com a tarde livre, fui sozinha até o café onde a gente costumava tomar café da manhã, o Les Deux Moulins, em Montmartre. Sentei na mesma mesa da janela, pedi um café crème e um croissant, e fiquei olhando a rua, pensando nele.
— Essa mesa é minha, sabia?
Levantei os olhos e meu coração parou. O Bruno. Dez anos mais velho, barba grisalha nas laterais, terno cinza, a mesma covinha no queixo.
— Não pode ser — eu disse.
— Eu venho aqui toda vez que estou em Paris. Na esperança.
— Na esperança de quê?
— De te encontrar.
Ele sentou na minha frente. Conversamos por horas. Ele era diplomata, morava em Bruxelas, divorciado havia dois anos. Eu era advogada, morava em São Paulo, solteira havia muito tempo. A gente ria das mesmas lembranças e, em cada silêncio, os olhares diziam o que nenhum dos dois tinha coragem de dizer.
— Meu voo sai amanhã às nove — eu disse, quando o café começou a fechar.
— O meu trem para Bruxelas sai às oito.
— Então a gente tem a noite.
— A gente sempre teve só a noite — ele disse, com um sorriso triste.
Andamos pelas ruas de Montmartre de mãos dadas, como dez anos antes. Paramos na escadaria da Sacré-Cœur para ver Paris acender. Ele me beijou ali, com a cidade aos nossos pés, e foi como se os dez anos não tivessem passado.
O hotel dele ficava perto. O quarto tinha uma janela com vista para os telhados de Paris e uma cama antiga de ferro que rangia. A gente riu quando ela rangeu pela primeira vez, igual à cama do alojamento. Ele tirou meu casaco, meu cachecol, minha blusa, devagar, como quem abre um presente esperado havia dez anos. Eu reconheci cada pedaço dele, e descobri pedaços novos.
— Você está diferente — ele disse, no escuro.
— Diferente como?
— Mais bonita. Mais segura. Mais mulher.
— E você continua o mesmo menino bobo.
— Só quando estou com você.
De manhã, no táxi para o aeroporto, a gente não se despediu. Trocamos telefones, e-mails, endereços. Prometemos não deixar acontecer de novo.
Desta vez, a gente cumpriu a promessa. Ele foi transferido para a embaixada em Brasília no ano seguinte. Hoje, toda vez que voltamos a Paris, tomamos café no Les Deux Moulins, na mesa da janela. A nossa mesa.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
