A noiva fugitiva
Faltavam três dias para o meu casamento com o Arthur e eu estava com a cabeça em outro lugar. Mais precisamente, no padrinho dele, o Vicente.
O Vicente era o melhor amigo do Arthur desde a infância. Engenheiro, morava em Portugal havia seis anos e tinha voltado só para o casamento. Bastou um jantar de boas-vindas para eu perceber o problema: eu não conseguia parar de olhar para ele, e ele não conseguia parar de olhar para mim.
Na despedida de solteira, minhas amigas me perguntaram por que eu estava tão quieta. Na prova do vestido, a costureira perguntou por que eu estava chorando. E no ensaio da cerimônia, quando o Vicente segurou minha mão para me mostrar onde ficar no altar, eu senti uma corrente elétrica subir pelo braço.
Na véspera do casamento, não consegui dormir. Saí para a varanda do hotel onde todos estavam hospedados e encontrei o Vicente lá, sozinho, fumando um cigarro com o olhar perdido.
— Você também não consegue dormir? — perguntei.
— Não. — Ele apagou o cigarro. — Clara, eu preciso te dizer uma coisa e depois você pode me odiar para sempre.
— Fala.
— Eu voltei de Portugal porque o Arthur me chamou. Mas eu fiquei porque te conheci. E eu não vou conseguir ficar no altar amanhã sem te dizer isso.
O ar sumiu dos meus pulmões. Eu deveria ter ido embora. Deveria ter fingido que não ouvi. Mas fiquei ali, na frente dele, e disse a única coisa que estava presa na minha garganta havia três semanas:
— Eu também.
Ele me beijou ali mesmo, na varanda, com a cidade dormindo lá embaixo. Foi um beijo de despedida e de começo ao mesmo tempo, desesperado, com gosto de culpa e de coisa certa. Fomos para o quarto dele no fim do corredor, longe do meu, e a noite foi a mais intensa e mais triste da minha vida. Cada toque dele parecia uma pergunta, e cada resposta minha, um adeus a tudo o que estava planejado.
De madrugada, deitada no peito dele, eu tomei a decisão mais difícil da minha vida. Bati na porta do quarto do Arthur às seis da manhã e contei tudo. Ele chorou, gritou, quebrou um copo. Depois, sentado na cama, me disse uma coisa que eu não esperava:
— Eu sabia, Clara. Eu vi como vocês se olhavam no jantar. Só achei que, se eu fingisse que não via, ia passar.
O casamento foi cancelado. Foi um escândalo na família. Minha mãe passou um mês sem falar comigo. Mas hoje, dois anos depois, eu moro em Lisboa, numa casa com vista para o Tejo, com o Vicente. E o Arthur, quem diria, casou com a minha madrinha.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
