Cartas anônimas
O primeiro bilhete apareceu numa segunda-feira, preso no limpador do para-brisa do meu carro, no estacionamento do escritório. Papel creme, letra caprichada, caneta azul: "Seu sorriso quando o elevador abre é a melhor parte do meu dia."
Achei que era engano. Guardei na bolsa, rindo. Na terça, outro: "Hoje você estava de vermelho. Deveria usar vermelho todos os dias."
Na quarta, na quinta, na sexta. Um bilhete por dia, sempre no mesmo lugar, sempre com a mesma letra. Elogios ao meu cabelo, ao meu perfume, à minha risada no refeitório. Na segunda semana, os bilhetes ficaram mais ousados.
"Fico imaginando como é o seu pescoço quando você prende o cabelo e ninguém está olhando."
"Quando você cruza as pernas na reunião, eu esqueço o assunto."
"Queria descobrir que perfume é esse que você usa, e em que partes do corpo você passa."
Eu lia aqueles bilhetes no carro, com o coração disparado, e voltava para casa pensando nisso a noite inteira. Comecei a observar todos os homens do prédio. O cara do RH, o estagiário de TI, o gerente do terceiro andar. Comecei a usar vermelho com mais frequência. Comecei a prender o cabelo de propósito.
Na quarta semana, o bilhete dizia: "Sexta, sete da noite, no terraço do prédio. Se você vier de vermelho, eu me apresento."
Passei a semana inteira em dúvida. Na sexta, fui trabalhar com um vestido vermelho escondido na bolsa. Às sete, troquei de roupa no banheiro, soltei o cabelo, passei o perfume em lugares que o bilhete tinha perguntado e subi a escada de serviço até o terraço.
Ele estava encostado na mureta, de costas para mim, olhando a cidade acender. Quando se virou, eu reconheci na hora: o Daniel, do jurídico. Quieto, sério, que mal falava comigo no elevador além de "bom dia".
— Você? — eu disse, sem acreditar.
— Eu. — Ele sorriu, nervoso. — Eu não sou bom em falar. Mas escrevo bem.
— Escreve muito bem. — Me aproximei. — Mas eu quero saber se você é bom em mais alguma coisa.
Ele riu, pela primeira vez na minha frente, e o rosto dele ficou outro. Chegou perto, segurou meu queixo e me beijou com a mesma calma e o mesmo cuidado das cartas. Depois me virou de costas, afastou meu cabelo e beijou meu pescoço, devagar.
— Era assim que eu imaginava — ele sussurrou.
O terraço estava vazio. A cidade lá embaixo não tinha como ver. E o vestido vermelho, como ele tinha dito no segundo bilhete, deveria ser usado todos os dias. Mas tirado também.
Guardo todos os bilhetes numa caixa de madeira. São vinte e dois. O último, ele me deu na manhã seguinte, no café da manhã do apartamento dele: "Agora eu sei que perfume é. E em que partes."
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
