Recomeço aos sessenta
Fiquei viúvo aos cinquenta e cinco anos. Depois de trinta anos casado com a Lúcia, eu não sabia viver sozinho. Não sabia cozinhar, não sabia passar roupa, não sabia o que fazer com as noites. Os filhos insistiram, insistiram, e aos sessenta eu me matriculei num grupo de dança de salão no centro de convivência do bairro.
Na primeira aula, éramos onze mulheres e quatro homens. A professora formou os pares e sobrou para mim a Dona Neusa. Sessenta e dois anos, cabelo vermelho de farmácia, batom combinando, brinco de argola enorme e um vestido de oncinha que ninguém mais teria coragem de usar.
— Você é o viúvo novo? — ela perguntou, me medindo de cima a baixo.
— Sou o Osvaldo.
— Neusa. Divorciada duas vezes. E eu conduzo, se você não souber.
Eu não sabia. Ela conduziu. Durante um mês, ela me arrastou pelo salão no bolero, no samba de gafieira, no forró, rindo das minhas pisadas, me corrigindo sem paciência e sem piedade.
— Osvaldo, você dança como quem carrega um caixão.
— Obrigado, Neusa.
— É verdade. Solta esse quadril. Você está vivo ainda, homem.
Aos poucos, eu soltei o quadril. Aprendi o bolero. Aprendi a gafieira. E, sem perceber, comecei a esperar a quinta-feira, dia da aula, com uma ansiedade que eu não sentia havia anos. Comecei a passar perfume. Comprei camisa nova. Os filhos estranharam.
No baile de fim de ano do centro de convivência, a Neusa apareceu de vestido vermelho de lantejoulas. Dançamos a noite inteira. No último bolero, ela encostou a cabeça no meu ombro e disse:
— Você aprendeu direitinho.
— Tive uma professora exigente.
— Exigente nada. Eu sou é carente.
Ela riu. Eu não ri. Fiquei olhando para ela, para aquela mulher que tinha me tirado do caixão em que eu estava enterrado vivo.
— Neusa, posso te levar em casa?
— Pode. Mas eu aviso: eu moro sozinha e não tenho vergonha de nada.
Ela morava num apartamento cheio de plantas, discos de vinil e fotos de viagens que tinha feito sozinha pelo mundo. Colocou um disco de Roberto Carlos e me puxou para dançar na sala, descalça. No meio da música, me beijou. Fazia cinco anos que ninguém me beijava.
— Eu não sei se ainda sei fazer isso — eu confessei, quando ela começou a desabotoar minha camisa.
— Ninguém esquece, Osvaldo. É como dançar bolero. E eu conduzo, se você não souber.
Ela conduziu. E eu descobri que sabia, sim. Que o corpo lembra, mesmo aos sessenta. E que a Neusa, com seu cabelo vermelho e sua falta de vergonha, era a mulher mais viva que eu já tinha conhecido.
Hoje a gente mora junto. Os filhos dela e os meus se dão bem. E toda quinta-feira a gente ainda vai para a aula de dança. Ela ainda conduz às vezes. Eu deixo.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
