BonecaHot Acompanhantes

Recém-separados

15 de abril de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Casais

Assinamos o divórcio numa terça-feira, às dez da manhã, no cartório do centro. Depois de oito anos de casamento, eu e o Marcos tínhamos decidido que não dava mais. Não teve briga, não teve traição. Só cansaço. A rotina tinha engolido a gente.

Na saída do cartório, na calçada, ele me olhou meio sem jeito.

— A gente podia almoçar. Para comemorar.

— Comemorar o divórcio?

— Comemorar que foi amigável. Que a gente não se odeia.

Fomos a um restaurante português na esquina, o mesmo onde tínhamos jantado no primeiro encontro, nove anos antes. Pedimos bacalhau e vinho verde. E, sem a pressão de estar casado, a conversa ficou leve. A gente riu das brigas bobas, dos defeitos um do outro, das viagens que deram errado.

— Lembra quando você esqueceu o passaporte em Lisboa? — eu disse.

— Lembra quando você brigou com o garçom em Roma porque o espaguete não tinha molho?

— Ele não tinha molho!

— Era carbonara, Lu!

Rimos tanto que o garçom veio perguntar se estava tudo bem. Na segunda garrafa de vinho verde, o Marcos ficou quieto, me olhando.

— Que foi? — eu perguntei.

— Faz quanto tempo que a gente não ri assim?

Fiquei pensando.

— Muito tempo. Anos, talvez.

— Por quê?

— Porque a gente estava cansado. De contas, de trabalho, de rotina.

— E agora?

— Agora a gente está divorciado. Não precisa mais ter cansaço.

Ele riu, mas os olhos não riam.

Na sobremesa, um pastel de nata dividido em dois, a mão dele encostou na minha em cima da mesa. Ficou ali. Eu não tirei.

— Lu — ele disse. — Acho que a gente fez besteira.

— Acho que fez.

— A gente se separou do cansaço. Não um do outro.

Saímos do restaurante às três da tarde. Ele ainda tinha a chave do apartamento, que ia devolver no fim de semana, quando terminasse de tirar as coisas dele. A gente foi para lá. As caixas da mudança dele estavam no chão da sala, fechadas com fita adesiva. Os livros dele na estante já estavam empacotados.

— Estranho estar aqui — ele disse, olhando as caixas.

— Estranho por quê?

— Porque eu não quero mais ir embora.

O beijo foi diferente de todos os beijos dos últimos anos. Era o beijo de um homem que tinha perdido alguma coisa e reencontrado. A gente tropeçou numa caixa no caminho para o quarto. Caiu na cama rindo. E pela primeira vez em muito tempo, não tinha conta para pagar, nem e-mail para responder, nem cansaço. Só a gente. Do jeito que era no começo.

— A gente acabou de se divorciar — eu disse, de madrugada, rindo no escuro.

— Eu sei. É a coisa mais ridícula que a gente já fez.

— O que a gente faz agora?

— A gente casa de novo. Mas desta vez sem deixar o cansaço entrar.

Casamos de novo seis meses depois. Só nós dois e duas testemunhas, no mesmo cartório. O almoço foi no restaurante português. E as caixas da mudança dele? A gente abriu todas, uma por uma, e colocou cada coisa de volta no lugar.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

Leia também

Ver todos →