Recém-separados
Assinamos o divórcio numa terça-feira, às dez da manhã, no cartório do centro. Depois de oito anos de casamento, eu e o Marcos tínhamos decidido que não dava mais. Não teve briga, não teve traição. Só cansaço. A rotina tinha engolido a gente.
Na saída do cartório, na calçada, ele me olhou meio sem jeito.
— A gente podia almoçar. Para comemorar.
— Comemorar o divórcio?
— Comemorar que foi amigável. Que a gente não se odeia.
Fomos a um restaurante português na esquina, o mesmo onde tínhamos jantado no primeiro encontro, nove anos antes. Pedimos bacalhau e vinho verde. E, sem a pressão de estar casado, a conversa ficou leve. A gente riu das brigas bobas, dos defeitos um do outro, das viagens que deram errado.
— Lembra quando você esqueceu o passaporte em Lisboa? — eu disse.
— Lembra quando você brigou com o garçom em Roma porque o espaguete não tinha molho?
— Ele não tinha molho!
— Era carbonara, Lu!
Rimos tanto que o garçom veio perguntar se estava tudo bem. Na segunda garrafa de vinho verde, o Marcos ficou quieto, me olhando.
— Que foi? — eu perguntei.
— Faz quanto tempo que a gente não ri assim?
Fiquei pensando.
— Muito tempo. Anos, talvez.
— Por quê?
— Porque a gente estava cansado. De contas, de trabalho, de rotina.
— E agora?
— Agora a gente está divorciado. Não precisa mais ter cansaço.
Ele riu, mas os olhos não riam.
Na sobremesa, um pastel de nata dividido em dois, a mão dele encostou na minha em cima da mesa. Ficou ali. Eu não tirei.
— Lu — ele disse. — Acho que a gente fez besteira.
— Acho que fez.
— A gente se separou do cansaço. Não um do outro.
Saímos do restaurante às três da tarde. Ele ainda tinha a chave do apartamento, que ia devolver no fim de semana, quando terminasse de tirar as coisas dele. A gente foi para lá. As caixas da mudança dele estavam no chão da sala, fechadas com fita adesiva. Os livros dele na estante já estavam empacotados.
— Estranho estar aqui — ele disse, olhando as caixas.
— Estranho por quê?
— Porque eu não quero mais ir embora.
O beijo foi diferente de todos os beijos dos últimos anos. Era o beijo de um homem que tinha perdido alguma coisa e reencontrado. A gente tropeçou numa caixa no caminho para o quarto. Caiu na cama rindo. E pela primeira vez em muito tempo, não tinha conta para pagar, nem e-mail para responder, nem cansaço. Só a gente. Do jeito que era no começo.
— A gente acabou de se divorciar — eu disse, de madrugada, rindo no escuro.
— Eu sei. É a coisa mais ridícula que a gente já fez.
— O que a gente faz agora?
— A gente casa de novo. Mas desta vez sem deixar o cansaço entrar.
Casamos de novo seis meses depois. Só nós dois e duas testemunhas, no mesmo cartório. O almoço foi no restaurante português. E as caixas da mudança dele? A gente abriu todas, uma por uma, e colocou cada coisa de volta no lugar.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
