Paredes finas
O apartamento era novo, o prédio era novo, mas as paredes eram finas como papel. Na primeira semana, eu e o Lucas descobrimos que os vizinhos do 302 eram um casal jovem e muito, muito animado. Toda noite, por volta das onze, começava: risadas, sussurros, a cabeceira batendo na parede do nosso quarto.
— De novo? — o Lucas resmungava, com o travesseiro na cabeça.
— Eles são recém-casados, amor. Deixa.
Mas na terceira semana eu percebi uma coisa. Toda vez que os vizinhos começavam, o Lucas parava de reclamar e ficava quieto. Quieto demais. E eu também. A gente ficava deitado no escuro, ouvindo, sem coragem de olhar um para o outro.
Numa quinta-feira, quando a cabeceira do 302 começou a bater, eu virei para ele.
— Lucas.
— Hum.
— A gente está casado há sete anos e nunca fez esse barulho todo.
Ele riu no escuro.
— Isso é um desafio?
— É uma constatação.
— Então a gente devia corrigir isso.
Foi a noite mais barulhenta da nossa vida. De propósito. A gente ria tanto que às vezes tinha que parar. Ele empurrou a cama para encostar na parede do 302 e eu dei um tapa nele de tanto rir. E do outro lado, depois de alguns minutos, o barulho dos vizinhos parou. Silêncio absoluto. Eles estavam ouvindo.
No dia seguinte, encontrei a vizinha do 302 no elevador. Ruiva, uns vinte e cinco anos, cara de quem não tinha dormido. Ela me olhou, ficou vermelha e sorriu.
— Bom dia, vizinha — ela disse.
— Bom dia.
— Vocês... estão bem?
— Ótimos. E vocês?
— Ótimos também.
O elevador chegou no térreo. Antes de sair, ela virou para mim e disse, baixinho:
— Hoje à noite a gente vai ganhar.
E assim começou a competição mais divertida do prédio. Toda noite, um casal tentava superar o outro. O Lucas, que antes dormia às onze, passou a fazer academia para aguentar o ritmo. Eu comprei lingerie nova. A gente nunca esteve tão animado.
Um mês depois, o síndico mandou uma circular para todos os moradores pedindo "respeito ao horário de silêncio após as 22h". Eu e a vizinha do 302 nos encontramos no hall, lemos a circular juntas e caímos na gargalhada.
— Empate? — ela propôs.
— Empate — eu concordei.
Hoje a gente é amiga. Jantamos juntos às sextas, os quatro. E, de vez em quando, depois do jantar, quando cada casal volta para o seu apartamento, alguém ainda começa a competição de novo.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
