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Paredes finas

30 de junho de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Casais

O apartamento era novo, o prédio era novo, mas as paredes eram finas como papel. Na primeira semana, eu e o Lucas descobrimos que os vizinhos do 302 eram um casal jovem e muito, muito animado. Toda noite, por volta das onze, começava: risadas, sussurros, a cabeceira batendo na parede do nosso quarto.

— De novo? — o Lucas resmungava, com o travesseiro na cabeça.

— Eles são recém-casados, amor. Deixa.

Mas na terceira semana eu percebi uma coisa. Toda vez que os vizinhos começavam, o Lucas parava de reclamar e ficava quieto. Quieto demais. E eu também. A gente ficava deitado no escuro, ouvindo, sem coragem de olhar um para o outro.

Numa quinta-feira, quando a cabeceira do 302 começou a bater, eu virei para ele.

— Lucas.

— Hum.

— A gente está casado há sete anos e nunca fez esse barulho todo.

Ele riu no escuro.

— Isso é um desafio?

— É uma constatação.

— Então a gente devia corrigir isso.

Foi a noite mais barulhenta da nossa vida. De propósito. A gente ria tanto que às vezes tinha que parar. Ele empurrou a cama para encostar na parede do 302 e eu dei um tapa nele de tanto rir. E do outro lado, depois de alguns minutos, o barulho dos vizinhos parou. Silêncio absoluto. Eles estavam ouvindo.

No dia seguinte, encontrei a vizinha do 302 no elevador. Ruiva, uns vinte e cinco anos, cara de quem não tinha dormido. Ela me olhou, ficou vermelha e sorriu.

— Bom dia, vizinha — ela disse.

— Bom dia.

— Vocês... estão bem?

— Ótimos. E vocês?

— Ótimos também.

O elevador chegou no térreo. Antes de sair, ela virou para mim e disse, baixinho:

— Hoje à noite a gente vai ganhar.

E assim começou a competição mais divertida do prédio. Toda noite, um casal tentava superar o outro. O Lucas, que antes dormia às onze, passou a fazer academia para aguentar o ritmo. Eu comprei lingerie nova. A gente nunca esteve tão animado.

Um mês depois, o síndico mandou uma circular para todos os moradores pedindo "respeito ao horário de silêncio após as 22h". Eu e a vizinha do 302 nos encontramos no hall, lemos a circular juntas e caímos na gargalhada.

— Empate? — ela propôs.

— Empate — eu concordei.

Hoje a gente é amiga. Jantamos juntos às sextas, os quatro. E, de vez em quando, depois do jantar, quando cada casal volta para o seu apartamento, alguém ainda começa a competição de novo.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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