BonecaHot Acompanhantes

Os quatro na cabana

8 de junho de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Casais

A Júlia era minha melhor amiga desde os doze anos. Quando ela se separou, depois de um casamento difícil, eu e o Felipe a convidamos para passar o fim de semana conosco numa cabana em Monte Verde. Ela precisava sair de casa, respirar, chorar longe das lembranças.

Na primeira noite, ela chorou. Na segunda, riu. Na terceira, na frente da lareira, com a segunda garrafa de vinho, ela olhou para nós dois abraçados no sofá e disse:

— Vocês são o casal mais lindo que eu conheço. Sabiam?

— Para com isso — eu disse, rindo.

— É sério. Eu sempre tive inveja de vocês. O jeito que ele te olha. O jeito que você ri das piadas ruins dele.

O Felipe ficou sem graça e ofereceu mais vinho para ela. Eu fiquei olhando para a Júlia. Ela estava linda à luz da lareira, cabelo solto, bochechas vermelhas, os olhos ainda inchados de tanto chorar nos dias anteriores. E de repente eu me lembrei de uma noite, quando tínhamos dezoito anos, numa festa, em que a gente se beijou por brincadeira e nunca mais falou sobre isso.

— Ju — eu disse. — Lembra da festa da Carol? Aos dezoito?

Ela arregalou os olhos e começou a rir.

— Não acredito que você lembra.

— O que aconteceu na festa da Carol? — o Felipe perguntou.

As duas caímos na gargalhada. Eu contei. O Felipe ficou mudo, olhando de uma para a outra.

— Vocês nunca me contaram isso.

— Foi bobagem — a Júlia disse. — Uma vez só.

— Foi bobagem? — eu perguntei, olhando para ela.

O silêncio que veio depois foi diferente. A lenha estalava. O Felipe olhou para mim, e eu vi nos olhos dele que ele tinha entendido antes de mim mesma.

— Se vocês quiserem... — ele disse, devagar. — Eu não me importo. Desde que você esteja bem, amor.

— E você? — eu perguntei. — Vai ficar só olhando?

— Isso quem decide são vocês duas.

A Júlia me olhou com medo, com vontade, com uma pergunta que eu também tinha. Eu levantei do sofá, sentei ao lado dela no tapete e beijei minha melhor amiga pela segunda vez na vida. Foi muito diferente da festa da Carol. Agora a gente sabia o que estava fazendo.

Depois de um tempo, ela olhou para o Felipe, ainda no sofá, e depois para mim.

— Posso?

Eu sorri e estendi a mão para o meu marido.

A noite foi longa, carinhosa, cheia de risadas e de cuidado. Ninguém foi deixado de lado. A Júlia, que tinha chegado à cabana quebrada, foi a primeira a dormir, aninhada entre nós dois no colchão que a gente arrastou para a frente da lareira.

No dia seguinte, a gente conversou muito. Sobre amizade, sobre limites, sobre o que tinha acontecido. Decidimos que tinha sido lindo e que a amizade continuava intacta. E continuou. A Júlia hoje está namorando um rapaz ótimo. Mas uma vez por ano, a gente ainda vai para Monte Verde. Só nós três.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

Leia também

Ver todos →