O vizinho de baixo
O vizinho do apartamento de baixo tocava violão toda noite, das dez à meia-noite. Músicas da MPB, bossa nova, às vezes um blues arrastado que subia pelo piso e entrava pelos meus ouvidos enquanto eu tentava dormir. Era bonito, mas eu acordava às seis.
Na quarta noite seguida, perdi a paciência. Desci de pijama, um short curto e uma regata velha, e toquei a campainha do 401 com o dedo firme.
Ele abriu a porta com o violão no pescoço. Uns trinta anos, cabelo cacheado bagunçado, barba por fazer, camiseta de banda e um sorriso que acabou com metade da minha raiva na hora.
— Oi. Posso ajudar?
— Pode. Parando de tocar às onze da noite. Eu acordo cedo.
— Desculpa — ele disse, sinceramente envergonhado. — Eu não sabia que dava para ouvir.
— Dá para ouvir tudo. Até quando você erra o acorde no refrão de "Garota de Ipanema".
Ele riu alto.
— Você presta atenção, então.
— É impossível não prestar.
— E você gosta?
Hesitei. Eu gostava. Gostava muito. Tinha noites em que eu ficava deitada ouvindo, de olhos fechados, imaginando o dono daquela voz.
— Gosto — admiti. — Mas não às onze da noite.
— Então entra — ele disse, abrindo mais a porta. — Eu toco uma para você, baixinho, e depois prometo parar.
Entrei. O apartamento era bagunçado, cheio de discos de vinil e partituras espalhadas. Ele sentou no sofá e eu sentei do lado, encolhida no meu pijama ridículo. Ele tocou uma bossa nova lenta, olhando para mim, cantando baixo, só para mim.
Quando terminou, ficou um silêncio estranho. Ele colocou o violão no chão.
— Você é a vizinha de cima — ele disse. — Eu ouço os seus passos de manhã. Ouço quando você canta no chuveiro.
— Você ouve isso?
— Você canta muito mal. Mas eu adoro.
Eu ri e dei um tapa no braço dele. Ele segurou a minha mão. Depois puxou. O beijo veio com gosto de cerveja e de música, e o pijama ridículo não durou muito. O sofá cheio de partituras virou o palco de outra apresentação, bem mais animada.
Às duas da manhã, deitada no peito dele, eu ouvi o barulho da vizinha do 501 batendo no chão do apartamento dela, lá em cima. No meu teto. No apartamento ao lado do meu.
— Acho que agora quem está fazendo barulho somos nós — ele riu.
— Ela que desça para reclamar — respondi. — Quem sabe ela tem a mesma sorte.
Hoje ele toca violão das dez à meia-noite, como sempre. A diferença é que agora eu assisto da primeira fila.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
