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O último ônibus

10 de julho de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Encontros

Perdi o último ônibus de Campinas para Valinhos por dois minutos. Vi as luzes traseiras indo embora enquanto eu corria pela rodoviária de salto alto, carregando a pasta do trabalho. Eram onze e meia da noite e o próximo ônibus só às cinco da manhã.

Sentei no banco da plataforma, derrotada. Um homem que também tinha perdido o ônibus sentou ao meu lado. Uns quarenta anos, terno sem gravata, cara de cansado.

— Também perdeu? — ele perguntou.

— Por dois minutos.

— Eu por um. — Ele suspirou. — Meu carro está no estacionamento. Eu ia pegar o ônibus porque bebi duas taças num jantar de negócios. Mas já faz três horas, estou bem. Você mora onde?

— Valinhos.

— Eu também. Quer carona?

Hesitei. Um desconhecido, de madrugada. Mas ele tinha um jeito tranquilo, uma aliança marcada no dedo sem aliança, e eu estava com muito sono.

O carro dele era um sedã prateado, limpo, cheirando a couro. A conversa foi fácil. Ele se chamava Alexandre, era engenheiro, recém-divorciado. Eu contei do meu trabalho, do meu cansaço, do meu ex que tinha ido embora com a estagiária.

No meio da estrada vicinal, num trecho escuro sem casa nenhuma, o pneu furou. O carro deu um tranco e ele parou no acostamento.

— Não acredito — ele disse, batendo no volante.

— Você sabe trocar pneu?

— Sei. Mas está escuro e começando a chover.

Ele saiu, abriu o porta-malas, pegou o estepe e o macaco. Eu segurei a lanterna do celular. A chuva fina foi engrossando. Em quinze minutos, ele estava encharcado, a camisa branca grudada no corpo, as mãos sujas de graxa. Eu também estava encharcada, a blusa colada, o cabelo pingando.

Quando ele finalmente apertou o último parafuso, entramos no carro correndo e ficamos os dois no banco da frente, ofegantes, molhados, rindo da situação. Ele ligou o aquecedor. Os vidros embaçaram na hora.

— Desculpa — ele disse. — Que noite.

— Foi a noite mais emocionante que eu tive em meses.

Ele me olhou. A luz do painel iluminava o rosto dele de um jeito bonito. Uma gota de chuva escorria do cabelo pela testa. Eu estiquei a mão e enxuguei.

— Sua mão está suja de graxa — ele avisou.

— Não ligo.

O beijo foi com gosto de chuva. O banco do carro reclinava. A blusa molhada saiu com dificuldade, grudada na pele. Ele ficou com uma marca preta de graxa no meu ombro, e eu deixei a marca das minhas mãos sujas nas costas da camisa branca dele. O aquecedor não dava conta, e o vidro embaçado escondia tudo da estrada deserta.

Chegamos em Valinhos às duas da manhã. Ele me deixou na porta de casa e me deu um cartão de visita.

— Para o caso de você perder o último ônibus de novo.

Eu perdi o último ônibus muitas vezes depois daquela noite. Algumas sem querer. A maioria de propósito.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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