O último ônibus
Perdi o último ônibus de Campinas para Valinhos por dois minutos. Vi as luzes traseiras indo embora enquanto eu corria pela rodoviária de salto alto, carregando a pasta do trabalho. Eram onze e meia da noite e o próximo ônibus só às cinco da manhã.
Sentei no banco da plataforma, derrotada. Um homem que também tinha perdido o ônibus sentou ao meu lado. Uns quarenta anos, terno sem gravata, cara de cansado.
— Também perdeu? — ele perguntou.
— Por dois minutos.
— Eu por um. — Ele suspirou. — Meu carro está no estacionamento. Eu ia pegar o ônibus porque bebi duas taças num jantar de negócios. Mas já faz três horas, estou bem. Você mora onde?
— Valinhos.
— Eu também. Quer carona?
Hesitei. Um desconhecido, de madrugada. Mas ele tinha um jeito tranquilo, uma aliança marcada no dedo sem aliança, e eu estava com muito sono.
O carro dele era um sedã prateado, limpo, cheirando a couro. A conversa foi fácil. Ele se chamava Alexandre, era engenheiro, recém-divorciado. Eu contei do meu trabalho, do meu cansaço, do meu ex que tinha ido embora com a estagiária.
No meio da estrada vicinal, num trecho escuro sem casa nenhuma, o pneu furou. O carro deu um tranco e ele parou no acostamento.
— Não acredito — ele disse, batendo no volante.
— Você sabe trocar pneu?
— Sei. Mas está escuro e começando a chover.
Ele saiu, abriu o porta-malas, pegou o estepe e o macaco. Eu segurei a lanterna do celular. A chuva fina foi engrossando. Em quinze minutos, ele estava encharcado, a camisa branca grudada no corpo, as mãos sujas de graxa. Eu também estava encharcada, a blusa colada, o cabelo pingando.
Quando ele finalmente apertou o último parafuso, entramos no carro correndo e ficamos os dois no banco da frente, ofegantes, molhados, rindo da situação. Ele ligou o aquecedor. Os vidros embaçaram na hora.
— Desculpa — ele disse. — Que noite.
— Foi a noite mais emocionante que eu tive em meses.
Ele me olhou. A luz do painel iluminava o rosto dele de um jeito bonito. Uma gota de chuva escorria do cabelo pela testa. Eu estiquei a mão e enxuguei.
— Sua mão está suja de graxa — ele avisou.
— Não ligo.
O beijo foi com gosto de chuva. O banco do carro reclinava. A blusa molhada saiu com dificuldade, grudada na pele. Ele ficou com uma marca preta de graxa no meu ombro, e eu deixei a marca das minhas mãos sujas nas costas da camisa branca dele. O aquecedor não dava conta, e o vidro embaçado escondia tudo da estrada deserta.
Chegamos em Valinhos às duas da manhã. Ele me deixou na porta de casa e me deu um cartão de visita.
— Para o caso de você perder o último ônibus de novo.
Eu perdi o último ônibus muitas vezes depois daquela noite. Algumas sem querer. A maioria de propósito.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
