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O sommelier

6 de junho de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Encontros

Fui à degustação no Vale dos Vinhedos sem saber nada de vinho. Era um presente de aniversário de uma amiga, que desistiu na última hora com uma gripe. Fui sozinha, de vestido verde, achando que ia passar vergonha.

A degustação era às cegas. Seis taças, olhos vendados, e a gente tinha que adivinhar a uva, a safra e a região. O sommelier se chamava Augusto. Uns quarenta anos, avental de couro, cabelo castanho preso, e uma voz grave que fazia qualquer descrição de vinho parecer poesia.

— Sinta o aroma primeiro — ele disse, ao meu lado, quando eu estava vendada. — Não tenha pressa. O vinho conversa com quem escuta.

Eu cheirei. Não senti nada além de vinho.

— Frutas vermelhas? — arrisquei.

— Todo vinho tinto tem frutas vermelhas, senhora. — Ele riu baixinho no meu ouvido. — Tente de novo. Feche os olhos por dentro da venda também.

A mão dele segurava a minha, guiando a taça até o nariz. Eu sentia o perfume dele, amadeirado, misturado com o vinho. E aquilo me desconcentrava completamente.

Errei os seis vinhos. Todos. Os outros participantes riram, mas de um jeito simpático. No fim, o Augusto veio até a minha mesa com uma garrafa sem rótulo.

— A senhora errou todos — ele disse.

— Eu sei. Que vergonha.

— Mas foi a única que me fez rir a tarde inteira. — Ele serviu duas taças. — Este não está à venda. É da minha produção pessoal. Quer experimentar?

Ficamos conversando até a vinícola fechar. Ele me contou que tinha largado o emprego num banco em São Paulo para fazer vinho no Sul. Que morava numa casinha de pedra no meio dos parreirais. Que tinha uma adega no porão com vinhos que nunca tinha mostrado para ninguém.

— Você quer conhecer? — ele perguntou.

— A adega?

— A adega. A casa. O que você quiser.

A casinha de pedra ficava a cinco minutos dali, cercada de parreiras com cachos de uva pesados. Ele me levou ao porão. A adega era pequena, escura, fresca, com cheiro de madeira e terra. Garrafas empilhadas até o teto. Ele acendeu uma vela e abriu uma garrafa empoeirada.

— Safra de 2015. O ano em que eu cheguei aqui.

Ele colocou a taça na minha mão e, desta vez, não precisou de venda. Fechei os olhos sozinha, senti o vinho, e quando abri, ele estava muito perto.

— E agora? O que você sente?

— Frutas vermelhas — eu disse, e ele riu.

O beijo dele tinha gosto de vinho velho. Na adega fresca, encostada nas prateleiras de madeira, eu senti o calor subir como se tivesse bebido a garrafa inteira. O vestido verde ficou pendurado num barril, e a vela foi diminuindo até apagar, sem que nenhum dos dois percebesse.

Voltei para a vinícola na semana seguinte, e na outra, e na outra. Ainda não sei reconhecer uma uva às cegas. Mas o Augusto diz que, para algumas coisas, eu tenho um paladar excelente.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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