O síndico
Quando me separei, fiquei com o apartamento e com todos os problemas que o meu ex resolvia sem eu perceber. A lâmpada da cozinha, a descarga que vazava e, numa terça-feira à noite, o chuveiro que resolveu soltar só água gelada em pleno inverno de Curitiba.
Liguei para o síndico, o seu Ricardo. "Seu" por educação, porque ele devia ter uns quarenta e poucos anos, viúvo, morava no último andar e era conhecido no prédio por resolver tudo com uma caixa de ferramentas vermelha e uma paciência infinita.
— Pode deixar que eu dou uma olhada agora — ele disse no interfone.
Ele chegou de bermuda, camiseta cinza e chinelo, com a famosa caixa vermelha na mão. Eu estava de roupão, porque tinha tentado tomar banho antes de desistir. Ele percebeu e desviou o olhar, um cavalheiro.
— Deve ser a resistência — disse, já dentro do box. — Me passa a chave de fenda?
Eu passei. Ele subiu num banquinho, desmontou o chuveiro e eu fiquei encostada na porta do banheiro, olhando aqueles braços fortes trabalhando lá em cima, a camiseta subindo e mostrando um pedaço da barriga.
— Pronto — ele disse, uns vinte minutos depois. — Testa aí.
Eu entrei no box, de roupão mesmo, e abri o registro. A água saiu quente, quente de verdade, e a fumaça tomou conta do banheiro. Comemorei como se tivesse ganhado na loteria e me virei para agradecer. O roupão, encharcado, já estava grudando no corpo.
— Ah, desculpa — ele disse, sem desviar o olhar dessa vez. — Acho que eu vou embora.
— Seu Ricardo.
— Ricardo. Só Ricardo.
— Ricardo... você também está todo molhado.
A camiseta cinza dele estava ensopada, grudada no peito. Ele olhou para baixo e riu. Eu estiquei a mão e puxei a camiseta dele para dentro do box, com ele dentro.
A água quente caía sobre os dois. Ele hesitou por um segundo, só um, e depois me encostou no azulejo frio e me beijou com uma vontade de quem estava sozinho havia muito tempo. O roupão molhado caiu no chão do box. A caixa de ferramentas vermelha ficou esquecida na pia.
— Faz quanto tempo que você queria isso? — perguntei, no meio do vapor.
— Desde a reunião de condomínio em que você reclamou do barulho do vizinho de baixo com aquele vestido amarelo.
— Aquilo foi há oito meses!
— Eu sou um homem paciente.
O banho durou até a água do aquecedor acabar. Desde então, meu apartamento é o mais bem cuidado do prédio. A descarga não vaza mais, a lâmpada da cozinha nunca mais queimou, e o Ricardo passa toda terça à noite "para verificar o chuveiro".
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
