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O segurança da balada

6 de setembro de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Relatos

O Rogério trabalhava como segurança na porta da balada mais disputada da cidade. Dois metros de altura, terno preto, ponto no ouvido e uma cara fechada que intimidava qualquer engraçadinho na fila. Ninguém passava sem estar na lista.

Ninguém, menos eu.

Toda sexta eu chegava, dava um sorriso, falava que tinha esquecido de colocar o nome, e ele, depois de um suspiro teatral, levantava a corda de veludo e me deixava passar.

— Uma hora você vai ter que pagar essa conta — ele disse, numa dessas noites.

— Quando quiser cobrar, me avisa.

Ficou nisso durante meses. Eu passava, ele me olhava de cima a baixo, eu fingia que não via. Lá dentro, eu dançava sabendo que ele estava me observando pelas câmeras ou de pé perto da escada. Às vezes, eu dançava para ele. Ele sabia.

Numa sexta de chuva, a balada estava vazia. Eu cheguei à meia-noite, encharcada, de vestido curto de paetê, e ele estava sozinho na porta, debaixo da marquise.

— Hoje você vai pagar — ele disse, sem levantar a corda.

— Quanto?

— Não é em dinheiro.

Ele falou no rádio que ia fazer uma pausa e pediu para o colega cobrir a porta. Depois pegou minha mão e me levou por uma porta lateral, de serviço, até um corredor escuro atrás do palco. O barulho da música chegava abafado pelas paredes, o grave batendo no peito.

— Faz meses que você me provoca — ele disse, me encostando na parede. — Dançando daquele jeito, olhando para a câmera.

— Você reparou?

— Eu não reparo em mais nada a noite inteira.

Ele era tão alto que precisou se abaixar para me beijar. As mãos enormes dele seguraram meu rosto com uma delicadeza que eu não esperava de um homem daquele tamanho. Depois desceram, menos delicadas. O vestido de paetê arranhava a camisa social dele, e o ponto no ouvido apitou duas vezes, ignorado.

— Seu colega vai te procurar — avisei, quando ele me levantou do chão como se eu não pesasse nada.

— Ele sabe esperar.

A música lá do outro lado da parede mudou três vezes antes de a gente sair daquele corredor. Voltei para a pista com o cabelo desarrumado e o batom borrado, e dancei a noite inteira sozinha, sorrindo para a câmera do canto do teto.

Desde então, meu nome está na lista VIP permanente. Escrito à mão, com a letra dele. E toda sexta, perto das duas da manhã, ele tira uma pausa de quinze minutos. Às vezes vinte.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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