O salva-vidas
Todo verão eu via o mesmo salva-vidas no posto 5 de Copacabana. Moreno, sunga vermelha, apito no pescoço, sentado na cadeira alta, olhando o mar com um binóculo. Eu e minhas amigas passávamos a tarde inteira na frente do posto, comentando cada movimento dele.
— Você nunca vai ter coragem — minha amiga disse, depois da terceira caipirinha.
— Coragem de quê?
— De ir falar com ele.
— Eu não vou falar. Vou fazer ele vir até mim.
Entrei no mar, nadei até depois da arrebentação e comecei a bater os braços, fingindo dificuldade. Não deu nem um minuto. O apito soou, ele desceu da cadeira, correu pela areia e mergulhou numa onda como um golfinho. Em segundos, estava do meu lado, me segurando pela cintura.
— Tudo bem? Fica calma, eu estou aqui.
— Obrigada — eu disse, fazendo voz de quem estava quase morrendo.
Ele me olhou de perto. Os olhos dele eram castanho-claros, quase dourados.
— Você está fingindo, né?
Eu fiquei vermelha.
— Como você sabe?
— Porque você estava boiando perfeitamente até dois segundos antes de começar a se debater. E porque você e suas amigas estão olhando para a minha cadeira a tarde inteira.
Eu quis sumir no fundo do mar. Mas ele começou a rir, ainda me segurando.
— Quer que eu te leve para a areia carregada, para suas amigas verem?
— Quero.
Ele me carregou nos braços pela areia, como nos filmes, com metade da praia assistindo. Minhas amigas gritavam e aplaudiam. Ele me colocou deitada na areia, perto do posto, ajoelhou do meu lado e fingiu verificar meu pulso.
— A senhora precisa de respiração boca a boca? — ele perguntou, sério.
— Acho que sim. É grave.
Ele se inclinou e me deu um selinho rápido. A praia inteira gritou. Depois piscou e voltou para a cadeira alta.
No fim da tarde, quando o posto fechou, ele me esperou na calçada, de bermuda e camiseta, com o cabelo ainda molhado.
— Ainda está precisando de cuidados?
— Estou muito traumatizada.
— Moro em Copacabana mesmo, a duas quadras. Tenho um kit de primeiros socorros completo.
O kit de primeiros socorros nunca saiu do armário. Mas ele cuidou de mim a noite inteira, com uma dedicação de quem leva o trabalho muito a sério. Às seis da manhã, ele precisou ir para o posto. Me deu um beijo e disse:
— Hoje à tarde, nada de fingir que está se afogando. Fica na areia, que eu vou te ver de binóculo.
Fiquei. Ele passou a tarde inteira apontando o binóculo para mim. E eu passei a tarde inteira tirando a parte de cima do biquíni, deitada de bruços, só para provocar.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
