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O professor de tango

20 de junho de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Romance

Fiquei viúva aos quarenta e oito anos, depois de vinte e dois de casamento. Os dois primeiros anos foram de luto e silêncio. No terceiro, minha filha me deu de presente uma viagem a Buenos Aires com um curso intensivo de tango incluído.

— Você sempre quis dançar, mãe — ela disse. — Vai.

Fui. A escola ficava em San Telmo, num casarão antigo com piso de madeira gasto e espelhos enormes nas paredes. O professor se chamava Martín. Uns cinquenta e cinco anos, cabelo grisalho penteado para trás, sapato de verniz e uma postura que parecia ter sido esculpida.

— O tango não é uma dança — ele disse, na primeira aula, com aquele sotaque portenho que fazia cada palavra parecer uma carícia. — É uma conversa. Sem palavras. O homem propõe, a mulher responde. Ou não.

Eu não sabia responder. Na primeira semana, pisei no pé dele umas cinquenta vezes. Ele nunca reclamou. Só sorria e dizia "otra vez, señora". Me corrigia a postura com uma mão nas minhas costas, firme e delicada. Me ensinava a sentir o abraço, a fechar os olhos e deixar o corpo dele me guiar.

— A senhora pensa demais — ele disse, na segunda semana. — Para de pensar. Sente.

Eu fechei os olhos e senti. O peito dele contra o meu. A mão dele nas minhas costas. A respiração dele no meu ouvido. A música do bandoneón enchendo a sala vazia. E pela primeira vez, eu não pisei no pé dele. Dançamos uma música inteira, e quando terminou, eu abri os olhos e ele estava me olhando de um jeito diferente.

— Ahora sí — ele disse. — Ahora usted está conversando.

Na terceira semana, ele me convidou para uma milonga, um baile de tango num salão antigo de Palermo. Coloquei um vestido vermelho que tinha comprado numa loja de San Telmo e um sapato de salto que doía horrores. Ele estava de terno preto, gravata vermelha, combinando comigo sem combinar.

Dançamos a noite inteira. Outros homens me tiravam para dançar e ele esperava, sentado, com um copo de vinho, me olhando. Quando eu voltava, ele estendia a mão sem dizer nada, e a gente voltava para a pista.

Na última tanda da noite, ele me apertou mais forte no abraço e disse, no meu ouvido:

— Faz três semanas que eu quero fazer uma pergunta.

— Que pergunta?

— Se a conversa pode continuar fora da pista.

O apartamento dele ficava em cima do salão de dança, com uma vitrola antiga e discos de tango empilhados no chão. Ele colocou um disco de Piazzolla e me tirou para dançar na sala. A gente dançou devagar, e a cada passo, uma peça de roupa ficava pelo caminho. O vestido vermelho no meio da sala. O paletó dele na poltrona. O sapato que doía, finalmente, jogado num canto.

Fazia três anos que ninguém me tocava. Ele me tocou como dançava: com paciência, com firmeza, ouvindo a minha resposta antes de propor o próximo passo. E eu descobri que meu corpo ainda sabia conversar.

Fiquei em Buenos Aires três meses, depois seis. Hoje eu moro lá. Dou aulas de tango com o Martín para turistas brasileiras. A primeira coisa que eu ensino é a mesma: o tango é uma conversa. E algumas conversas não terminam quando a música acaba.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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