O professor de dança
Minha prima ia casar em dois meses e a festa ia ter forró a noite inteira. Eu, que dançava igual a um poste, me matriculei numa escola de dança perto do trabalho. Aulas particulares, porque eu tinha vergonha de errar na frente de uma turma inteira.
O professor se chamava Rafael. Pernambucano, moreno, sorriso fácil e um jeito de olhar que fazia a gente esquecer a contagem dos passos. Na primeira aula, ele segurou minha mão direita, colocou a outra mão nas minhas costas e disse:
— O forró é uma conversa. Eu falo com o corpo, você responde com o corpo. Se você ficar dura, a conversa acaba.
Eu fiquei dura. Durinha. Ele riu e me puxou mais perto, até nossos quadris quase encostarem.
— Mais perto. No forró pé de serra, não cabe nem uma folha de papel entre o casal.
Na terceira aula, eu já não errava tanto. Na quinta, já conseguia girar sem tropeçar. Mas o que eu esperava a semana inteira era o momento em que ele colocava a música mais lenta, um xote arrastado, e a gente dançava colado, a perna dele entre as minhas, o rosto dele encostado no meu, a respiração dele no meu pescoço.
— Você está aprendendo rápido demais — ele disse numa dessas noites. — Daqui a pouco não vai precisar mais de mim.
— Quem disse que eu venho só pela dança?
Ele parou de dançar no meio do xote. A música continuou tocando sozinha na sala de espelhos. Ficamos parados, abraçados, olhando um para o outro.
— A escola fecha às dez — ele disse. — Já são dez e cinco.
— Então a aula de hoje vai ser de graça?
— A aula de hoje vai ser outra coisa.
Ele trancou a porta da sala e baixou a luz, deixando só o reflexo da rua nos espelhos. Recomeçou o xote, agora sem nenhuma distância entre nós, as mãos dele descendo das minhas costas para a minha cintura, para o meu quadril, conduzindo um passo que não estava em nenhuma apostila. A gente dançou até a música acabar e continuou se mexendo depois, no silêncio.
No casamento da minha prima, eu fui a sensação da pista. Todo mundo queria saber onde eu tinha aprendido a dançar daquele jeito. Minha prima, desconfiada, perguntou se o professor era bom.
— Excelente — respondi. — Muito dedicado. Faz até hora extra.
O Rafael estava lá também, como meu acompanhante. Na hora do xote, a gente dançou tão colado que a minha tia fez o sinal da cruz.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
