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O piloto de Fórmula Truck

16 de junho de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Fantasias

Fotografo automobilismo há oito anos. Já fiz Stock Car, Fórmula Truck, kart, arrancada. Conheço cada curva de Interlagos, cada ângulo do Velopark, cada poça de óleo de Goiânia. E conheço, melhor do que qualquer piloto, o Leandro Bassi.

Ele corre de caminhão. Um homem enorme, ombros largos, braços tatuados, barba cerrada, que desce da cabine depois de uma corrida suado, sujo de graxa, e sorri para a minha câmera como se soubesse exatamente o que está fazendo comigo. Eu tenho mais de duas mil fotos dele. Algumas nunca publiquei. Ficam numa pasta no computador chamada "arquivo".

Na etapa de Interlagos, choveu forte o fim de semana inteiro. A corrida de domingo foi um caos: carros rodando, caminhões derrapando, bandeira amarela o tempo todo. O Leandro venceu. Desceu da cabine na chuva, encharcado, e eu estava lá, de capa de chuva, com a lente apontada para ele.

— Você nunca para de me fotografar — ele disse, chegando perto, a chuva escorrendo pelo rosto.

— É o meu trabalho.

— É só trabalho?

Eu baixei a câmera.

— Por que a pergunta?

— Porque eu vi seu nome na lista de credenciados em todas as etapas. Oito anos. E você está sempre na minha curva.

Fiquei vermelha debaixo do capuz.

— Você vence muito. As fotos vendem.

— Mentirosa.

Os mecânicos estavam desmontando o box. Ele me pegou pela mão e me levou para dentro do caminhão de apoio da equipe, um baú enorme cheio de pneus e ferramentas, com cheiro de borracha, óleo e chuva. Fechou a porta. O barulho da chuva no teto de metal era ensurdecedor.

— Eu também tenho uma pasta — ele disse.

— Uma pasta?

— De fotos suas. Que meu assessor tira quando você está me fotografando. Oito anos.

Eu ri, sem acreditar.

— Você está brincando.

Ele pegou o celular e me mostrou. Eu, de colete de imprensa, em Goiânia. Eu, deitada na grama de Interlagos, mirando a lente. Eu, de chapéu, no sol de Cascavel. Dezenas de fotos.

— Larga a câmera — ele disse.

Eu larguei. Coloquei a câmera numa pilha de pneus e ele me encostou na parede de metal do baú. O macacão de corrida dele estava encharcado e quente. A minha capa de chuva caiu no chão. O beijo dele tinha gosto de chuva e de vitória, e as mãos dele, enormes, sujas de graxa, me seguravam com uma delicadeza que eu nunca esperaria daquele homem. A chuva martelava o teto e abafava tudo, inclusive os nomes que a gente falava baixinho.

Quando saímos do baú, a pista estava vazia e a chuva tinha parado. Eu tinha marcas de graxa no pescoço e ele um sorriso que nenhuma das minhas duas mil fotos tinha capturado.

Na etapa seguinte, a assessoria da equipe dele me contratou como fotógrafa oficial. A pasta "arquivo" continua crescendo. Mas agora tem fotos que só eu e ele vemos.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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