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O piloto

9 de agosto de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Encontros

Oito anos como comissária de bordo e uma regra de ouro: nunca, jamais, me envolver com piloto. Eu tinha visto colegas se apaixonando por comandantes casados, por copilotos galinhas, por homens que tinham uma namorada em cada aeroporto. Eu não ia ser mais uma.

Até a escala em Lisboa com o comandante Augusto.

Ele era novo na companhia, transferido de outra empresa. Uns quarenta e cinco anos, grisalho nas têmporas, voz calma de quem já pousou no meio de tempestade e não perdeu o sorriso. Durante o voo de dez horas, ele me chamou na cabine três vezes para pedir café. Na terceira, eu desconfiei.

— O senhor bebe muito café, comandante.

— Só quando quero desculpa para ver quem traz.

Pousamos em Lisboa às sete da manhã. Doze horas de escala, o voo de volta só à noite. A tripulação foi para o hotel e cada um sumiu no próprio quarto. Eu tomei banho, deitei e não consegui dormir. Às onze, alguém bateu na porta.

Era ele, de camiseta e calça jeans, com dois cafés de uma padaria portuguesa na mão.

— Já que você não deixou eu terminar o café da cabine...

— Comandante, eu tenho uma regra.

— Eu sei. A Renata me contou. Nunca piloto.

— E mesmo assim você veio.

— Vim. Regras existem para ser avaliadas caso a caso. — Ele sorriu. — Que tal pelo menos um passeio por Alfama? Só um passeio.

Fomos. Subimos as ladeiras de pedra, comemos pastel de nata, ouvimos fado numa tasca escondida. Ele segurou minha mão numa escadaria íngreme e não soltou mais. No miradouro de Santa Luzia, com Lisboa inteira aos nossos pés e o Tejo brilhando, ele me beijou. Eu deixei.

— Ainda faltam seis horas para o voo — ele disse.

— E o que o senhor sugere, comandante?

— Que a gente volte para o hotel e eu prove que nem todo piloto é igual.

No quarto dele, a luz da tarde entrava pela janela com cortina de linho. Ele tirou meu uniforme peça por peça, o lenço do pescoço, o blazer azul, a camisa branca, com a mesma calma e precisão com que fazia o checklist antes da decolagem. Eu ria, porque ele narrava cada etapa como se fosse um procedimento de voo.

— Procedimento de descida iniciado — ele dizia, beijando minha barriga.

— Comandante, isso não está no manual.

— Estou escrevendo um manual novo.

Às sete da noite, estávamos os dois no saguão do hotel, de uniforme impecável, cabelo arrumado, profissionais. Ninguém da tripulação desconfiou de nada. No voo de volta, ele me chamou na cabine para pedir café. Uma vez só. E me entregou um papel dobrado: "Próxima escala em Lisboa: 14 de março. Mesmo hotel, mesmo quarto."

Quebrei minha regra de ouro. Mas reescrevi o manual.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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