O livreiro
O sebo ficava numa galeria antiga do centro de Curitiba, entre uma relojoaria e uma loja de discos. Estantes até o teto, cheiro de papel velho, um gato gordo dormindo em cima da pilha de enciclopédias. E atrás do balcão, o livreiro: Otávio, uns quarenta anos, óculos redondos, suéter de lã, barba castanha e uma voz baixa de quem passou a vida lendo em silêncio.
Eu entrei pela primeira vez para fugir da chuva. Fiquei duas horas.
— Procurando alguma coisa? — ele perguntou, depois de um tempo.
— Não sei. Algo que me tire da rotina.
Ele me olhou por cima dos óculos. Ficou me observando uns segundos, como quem lê uma capa. Depois foi até uma estante do fundo e voltou com um livro de capa vermelha.
— Este.
Era um romance francês do século dezenove. Uma mulher casada, entediada, que se apaixona por um pintor.
— Por que este?
— Porque você tem cara de quem está entediada e precisa de um pintor.
Eu ri, ofendida e encantada ao mesmo tempo. Comprei o livro. Li em três noites. Voltei ao sebo na semana seguinte.
— E aí? — ele perguntou.
— A personagem foi muito corajosa.
— E você?
— Eu sou só uma leitora.
— Por enquanto.
Durante dois meses, eu voltei toda sexta. Ele sempre me recomendava um livro, e sempre acertava. Romances, poesias, contos. Cada um com uma mulher que fazia alguma coisa que eu nunca tinha tido coragem de fazer. Eu lia, voltava, a gente conversava sobre o livro por horas, sentados no chão entre as estantes, com o gato no colo. Ele sabia de cor trechos inteiros de poemas.
Numa sexta de inverno, com a galeria vazia e a chuva batendo no telhado de vidro, ele me entregou um livro sem capa. Só folhas amareladas, costuradas à mão.
— O que é isso?
— Poemas. Que eu escrevi.
Abri. O primeiro poema era sobre uma mulher que entrou num sebo fugindo da chuva. O segundo, sobre a cor do cabelo dela. O terceiro, sobre o jeito que ela mordia o lábio quando lia uma parte boa. Todos os poemas eram sobre mim.
— Otávio...
— Você não precisa dizer nada.
— Eu preciso, sim.
Fechei o livro e olhei para ele. Ele tirou os óculos. Eu nunca tinha visto os olhos dele sem as lentes. Eram castanhos, cansados, cheios de coisas não ditas.
— Fecha a loja — eu disse.
Ele virou a placa da porta. Apagou as luzes da frente. Me levou para o fundo do sebo, onde tinha uma poltrona de couro gasta e uma luminária de pé. Eu sentei na poltrona e ele ajoelhou na minha frente, como quem vai ler em voz alta.
— Qual era o trecho que você mais gostou do primeiro livro? — ele perguntou.
— Aquele em que ela solta o cabelo na frente do pintor.
Ele sorriu, e soltou meu cabelo.
Entre as estantes de livros velhos, com o gato dormindo e a chuva lá fora, ele me mostrou que conhecia muito mais do que poemas de cor. Que sabia ler as pessoas como lia os livros: com calma, com atenção, sem pular nenhuma página.
Eu não sou mais só uma leitora. Hoje a gente toca o sebo juntos. E toda sexta-feira, quando a galeria esvazia, a placa da porta vira para "fechado" um pouco mais cedo.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
