O instrutor de mergulho
Tirar o certificado de mergulho em Fernando de Noronha era um sonho antigo. Juntei dinheiro por dois anos e me matriculei num curso de cinco dias numa escola da Vila dos Remédios.
A instrutora se chamava Marina, e o nome não podia ser mais adequado. Pele dourada de sol, cabelo descolorido pelo sal, ombros fortes de quem nada desde criança e um sorriso que fazia a gente esquecer que estava com medo de afogar.
— O mergulho é sobre respiração e confiança — ela disse, no primeiro dia, na piscina. — Se você entrar em pânico, me olha nos olhos. Eu vou estar sempre do seu lado.
Ela estava sempre do meu lado. Ajustava meu colete, conferia a máscara, segurava minha mão nas descidas. Embaixo d'água, a gente se comunicava por sinais: ok, subir, descer, olha ali. No terceiro dia, ela me ensinou um sinal que não estava na apostila: as duas mãos formando um coração. Eu ri tanto que entrou água na máscara.
No quinto dia, fizemos o mergulho final, no Buraco do Inferno, um dos pontos mais bonitos da ilha. Só nós dois, porque o outro aluno tinha desistido. Descemos doze metros, cercados de peixes coloridos, tartarugas, corais. Uma raia passou do nosso lado, enorme e lenta.
Lá embaixo, no meio daquele azul infinito, ela pegou minha mão e fez o sinal do coração. Depois apontou para mim. Eu fiquei sem ar, e não era o regulador.
Quando subimos para o barco, tiramos as máscaras e ela riu do meu rosto marcado pelo silicone.
— Você foi muito bem. Está certificado.
— Aquele sinal no fundo também valia nota?
Ela ficou vermelha por baixo do bronzeado.
— Aquele sinal não é da apostila.
— Eu sei. Você que inventou.
— Inventei para você. Faz cinco dias que eu quero te dizer.
O barqueiro estava na proa, de costas, mexendo no motor. Ela chegou perto de mim, ainda com a roupa de neoprene molhada, e me beijou com gosto de sal. Depois desceu o zíper da minha roupa de mergulho até a cintura e passou as mãos geladas no meu peito.
— Seu fôlego está ótimo — ela disse.
— Agora não está mais.
À noite, ela me levou para ver o pôr do sol na Praia do Sancho e depois para a casinha onde morava, na Vila do Trinta, com rede na varanda e vista para o mar. O ventilador de teto girava devagar, a janela aberta trazia o barulho das ondas, e ela me mostrou que, assim como no mergulho, a respiração fazia toda a diferença.
Fiquei em Noronha mais duas semanas do que tinha planejado. Gastei todo o dinheiro que tinha guardado para voltar no ano seguinte. Valeu cada centavo. Hoje tenho cento e dois mergulhos registrados no meu logbook. A instrutora de todos eles foi a mesma.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
