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O hóspede do quarto 14

30 de setembro de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Relatos

Eu trabalhava na recepção de um hotel de beira de estrada, desses onde param caminhoneiros, vendedores e casais de passagem. O turno da noite era solitário: um rádio baixinho, palavras cruzadas e de vez em quando um hóspede pedindo toalha extra.

O Augusto aparecia toda primeira terça do mês. Representante comercial de uma marca de cosméticos, sempre de camisa social, sempre perfumado, sempre com uma piada nova para me contar enquanto eu fazia o check-in. Pedia o quarto 14, o mais afastado, porque dizia que roncava alto e não queria incomodar ninguém.

— Você nunca muda de turno? — ele perguntou numa dessas terças.

— Só quando você não vem — brinquei, e me arrependi na hora.

Ele sorriu de canto e pegou a chave devagar, encostando os dedos nos meus.

Num mês de muita chuva, o sistema do hotel caiu bem na hora em que ele chegou. Eu tive que fazer o cadastro à mão, numa ficha de papel, e ele ficou ali, debruçado no balcão, me olhando escrever.

— Nome completo? — perguntei, sem levantar os olhos.

— Augusto Ferreira Lima. Solteiro. Disponível.

— Não perguntei o estado civil.

— Mas eu queria que você soubesse.

Terminei a ficha com a mão tremendo. Entreguei a chave do 14 e ele não pegou.

— A que horas acaba o seu turno?

— Às seis.

— Que pena. Eu ia te convidar para assistir um filme no quarto. A TV a cabo do 14 é ótima.

Ele subiu. Eu fiquei olhando para a escada vazia por uns bons cinco minutos. O hotel estava quase sem hóspedes por causa da chuva. O telefone não tocava. O rádio tocava uma música romântica dos anos oitenta que parecia combinada.

À uma da manhã, peguei o interfone e liguei para o quarto 14.

— Recepção. O senhor solicitou toalhas extras?

— Não solicitei — ele respondeu, e dava para ouvir o sorriso na voz. — Mas aceito.

Subi com as toalhas na mão e o coração na boca. Ele abriu a porta de bermuda, sem camisa, com o cabelo molhado do banho. Nem pegou as toalhas. Me puxou para dentro pela cintura e encostou a porta com o pé.

— Você sabe que eu nunca ronquei, né? — ele disse no meu ouvido. — Eu pedia o 14 porque é o único quarto de onde não dá para ouvir nada na recepção.

Ninguém na recepção ouviu nada mesmo. Às cinco e meia, eu voltei para o balcão com o uniforme amassado e o cabelo preso de qualquer jeito, a tempo de entregar o turno. Meu colega da manhã perguntou se a noite tinha sido tranquila.

— Muito movimentada — respondi. — O hóspede do 14 deu um trabalho...

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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