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O guia de turismo

16 de julho de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Relatos

Fui sozinha para Bonito, no Mato Grosso do Sul, para comemorar meus trinta e cinco anos e meu divórcio, que tinha saído na mesma semana. Contratei um guia particular para os passeios, porque não queria passar os dias em grupo de excursão com famílias e casais.

O guia se chamava Cauã. Nativo da região, pele queimada de sol, cabelo preto comprido preso num rabo, e um jeito tranquilo de falar da natureza como se ela fosse parente dele. No primeiro dia, fizemos flutuação no Rio da Prata. A água era tão transparente que parecia que a gente estava voando sobre os peixes.

— Relaxa o corpo — ele disse, me segurando pela cintura na água. — O rio te carrega. Você só precisa confiar.

Eu confiei. Flutuamos por uma hora, lado a lado, ele apontando os dourados e os piraputangas. Às vezes, a mão dele roçava a minha embaixo d'água. Às vezes, eu deixava.

No terceiro dia, fizemos uma trilha longa até uma gruta. Na volta, no meio da mata, ele parou.

— Quer ver uma coisa que não está no roteiro?

— Quero.

Ele saiu da trilha principal e entrou numa picada estreita no meio das árvores. Andamos uns quinze minutos, ele segurando os galhos para eu passar, até chegar numa cachoeira pequena, escondida, com um poço de água verde-esmeralda e nenhum turista à vista.

— Só os moradores conhecem — ele disse. — Eu nunca trouxe cliente aqui.

— Por que eu?

— Porque você é a primeira que olha para a natureza como eu olho.

Ele tirou a camiseta e mergulhou no poço. Eu fiquei na pedra, de biquíni, olhando aquele corpo sumir e aparecer na água verde. Depois mergulhei também. A água era gelada, e eu dei um grito que ecoou pela mata. Ele nadou até mim e riu.

— Gelada demais?

— Congelante.

— Vem cá que eu te esquento.

Ele me puxou para debaixo da queda d'água. A água caía forte nas nossas cabeças, e ele me encostou na pedra lisa atrás da cachoeira, num pequeno espaço escondido onde a água fazia uma cortina. Lá dentro, o barulho era ensurdecedor e o mundo inteiro tinha sumido.

O beijo dele tinha gosto de água de rio. As mãos dele eram ásperas e quentes contra a minha pele arrepiada de frio. A parte de cima do biquíni foi levada pela correnteza e eu nem liguei. Atrás daquela cortina de água, naquela pedra lisa, eu me senti a primeira mulher do mundo, num lugar que ninguém mais conhecia.

Saímos do poço quando o sol começou a baixar, eu com a camiseta dele, porque o biquíni nunca foi achado.

Fiquei em Bonito mais uma semana do que tinha planejado. Fiz todos os passeios com o Cauã. E voltamos à cachoeira escondida todos os dias, no fim da tarde, depois que os outros turistas já tinham ido embora.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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