O fotógrafo de casamento
Fui madrinha do casamento da minha irmã numa fazenda em Itu. Vestido longo lilás, cabelo preso, salto que afundava na grama. O fotógrafo era um rapaz contratado de última hora, depois que o primeiro desistiu. Se chamava Vinícius. Uns trinta anos, camisa preta, câmera pesada pendurada no pescoço e um jeito de se mover pela festa como se fosse invisível.
Mas eu via ele. O tempo todo. Na cerimônia, ele estava de joelhos perto do altar, e quando eu entrei pelo corredor, a lente virou para mim. No coquetel, eu ria com as primas e ouvia o clique da câmera. Na pista de dança, quando eu dançava com o meu pai, ele estava ali, perto, me seguindo.
— Você está fotografando a noiva ou a madrinha? — perguntei, num momento em que ele estava trocando a lente perto da mesa de doces.
Ele sorriu, sem desviar.
— Estou fotografando o que é bonito.
— A noiva é a minha irmã. Ela é bonita.
— Ela é linda. Mas você não para de rir. E eu não consigo parar de fotografar quando alguém ri assim.
A festa foi até as três da manhã. Quando os últimos convidados foram embora, eu fiquei para ajudar a recolher as coisas. O Vinícius estava sentado num banco de madeira perto do lago da fazenda, revisando as fotos na tela da câmera.
— Posso ver? — perguntei, sentando do lado dele.
Ele hesitou. Depois me passou a câmera.
As fotos da noiva eram lindas. As do noivo também. As da família, as dos convidados, as da decoração. E então, uma sequência. Eu. Rindo no coquetel, com a cabeça jogada para trás. Eu, ajeitando o cabelo sem perceber que estava sendo fotografada. Eu, olhando para o lago com uma taça na mão, distraída. Eu, dançando descalça no final da festa, com o salto na mão. Dezenas de fotos. Mais minhas do que da noiva.
— Você me fotografou a noite inteira.
— Desculpa. Eu não consegui evitar.
— Você vai entregar essas fotos para a minha irmã?
— Essas não. Essas são minhas. Se você deixar.
Eu olhei para ele. A lua estava refletida no lago. O silêncio da fazenda depois da festa era enorme.
— Tem uma foto que você não tirou — eu disse.
— Qual?
— Essa.
E beijei ele. A câmera ficou no banco, esquecida. Ele me levou para o celeiro da fazenda, onde a decoração da festa estava guardada, cheio de feno, de luzinhas de pisca-pisca que ainda estavam acesas e de arranjos de flores que tinham sobrado. O vestido lilás tinha um zíper nas costas que ele abriu devagar, como quem ajusta o foco antes do clique mais importante. E entre as luzinhas e as flores, eu descobri que ele era tão bom com as mãos quanto com a câmera.
Quando o sol nasceu, a gente estava deitado no feno, coberto com uma toalha de mesa de linho que tinha sobrado da festa. Ele pegou a câmera e me fotografou ali, despenteada, com o rosto dourado pelo sol da manhã.
— Essa é a melhor foto que eu já tirei — ele disse.
Ela está na parede da nossa sala até hoje. Ninguém sabe onde foi tirada. Minha irmã acha que foi numa viagem. A gente deixa ela achar.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
