O encontro às cegas
Minhas amigas marcaram um encontro às cegas. "Ele é perfeito para você", disseram. "Engenheiro, trinta e dois anos, alto, de barba. Mesa doze, restaurante japonês da Rua Augusta, às oito."
Cheguei às oito em ponto. O restaurante estava cheio. Perguntei ao garçom pela mesa doze. Ele apontou para uma mesa no canto onde estava um homem alto, de barba, de camisa azul, olhando o cardápio.
— Oi — eu disse, sentando. — Eu sou a Renata.
Ele levantou os olhos, surpreso.
— Oi, Renata.
— Desculpa o atraso. Quer dizer, eu cheguei na hora. Mas pareço atrasada porque estou nervosa.
Ele sorriu. Um sorriso bonito, meio confuso.
— Tudo bem. Eu também estou nervoso.
O jantar foi incrível. Ele era engraçado, inteligente, educado. Me ensinou a usar os hashis direito. Me contou da infância no interior de Minas. Riu das minhas piadas sem graça. Eu ria das dele, que eram ótimas. Pedimos sake. Depois mais sake. Duas horas passaram como dez minutos.
— Engraçado — eu disse. — As minhas amigas acertaram em cheio. Você é exatamente como elas descreveram.
— Como elas me descreveram?
— Engenheiro, trinta e dois, alto, de barba.
Ele parou de rir. Ficou me olhando, com o copo de sake no ar.
— Renata. Eu sou arquiteto. Tenho trinta e cinco anos.
— O quê?
— E eu estou esperando uma pessoa chamada Juliana. Há duas horas. Ela nunca chegou.
Eu olhei para ele. Ele olhou para mim. Eu olhei para o número da mesa. Era a mesa vinte e um, não a doze. O garçom tinha me mandado para a mesa errada.
Do outro lado do restaurante, na mesa doze de verdade, um homem de barba, engenheiro, trinta e dois anos, já estava indo embora, olhando o relógio, irritado.
— Ai, meu Deus — eu disse, escondendo o rosto nas mãos. — Ai, meu Deus.
Ele começou a rir. Uma gargalhada que fez o restaurante inteiro olhar para nós. Eu ri também, de vergonha, de nervoso.
— Eu sou o Caio — ele disse, estendendo a mão. — Prazer, Renata.
— Prazer, Caio. Desculpa ter estragado o seu encontro.
— Você não estragou nada. A Juliana nem apareceu. E foi o melhor encontro que eu tive em anos.
A gente saiu do restaurante às onze. Andamos pela Augusta, rindo da confusão. Na porta de um bar, ele me beijou. Depois me levou para o apartamento dele, que ficava a duas quadras. Era cheio de maquetes e desenhos de prédios. Ele me mostrou os projetos, eu fingi entender. E no meio da explicação sobre uma ponte que ele tinha desenhado, eu o beijei, e ele largou a maquete.
— Você sempre interrompe as pessoas assim? — ele perguntou, rindo.
— Só as erradas.
— Eu sou o errado.
— Você é o certo na mesa errada.
As minhas amigas nunca entenderam como eu fui parar com o Caio. Eu explico a história em todas as festas. Ainda hoje, cinco anos depois, a gente janta no mesmo restaurante japonês da Augusta todo aniversário de namoro. Sempre na mesa vinte e um.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
