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O caderno de desejos

25 de maio de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Relatos

Estávamos de mudança. Caixas por todo lado, fita adesiva, plástico bolha. Eu estava esvaziando a última gaveta do armário da Camila quando achei, embaixo das meias, um caderno de capa de couro marrom com um fecho de metal.

Achei que era um diário. Não abri. Mas o fecho estava aberto e o caderno caiu no chão, aberto numa página no meio. E eu li, sem querer, a primeira frase.

"Quero que ele me pegue de surpresa na cozinha, sem dizer nada, quando eu estiver fazendo o jantar."

Fiquei parado, com o caderno na mão. Virei a página.

"Quero tomar banho de chuva com ele no quintal, de roupa, e terminar sem."

"Quero que ele me leve para um motel numa terça-feira à tarde, como se fôssemos amantes."

"Quero que ele leia para mim em voz alta enquanto eu..."

O caderno tinha trinta páginas. Fantasias, desejos, vontades. Algumas simples, outras ousadas, algumas que me deixaram vermelho sozinho no quarto. E na primeira página, a data: dois anos antes. E uma frase: "Coisas que eu nunca tive coragem de pedir."

Guardei o caderno de volta embaixo das meias. Não falei nada. Mas naquela noite, quando a Camila estava na cozinha da casa nova fazendo macarrão, eu cheguei por trás, sem dizer nada, e a abracei pela cintura. Ela deu um pulo. Eu beijei o pescoço dela. Ela riu, nervosa. E eu desliguei o fogo.

O macarrão ficou para depois. Bem depois.

Na semana seguinte, choveu forte num domingo. Eu a chamei para o quintal. Ela me olhou como se eu fosse louco. Eu a puxei pela mão para a chuva, de roupa e tudo, e a beijei encharcado. A roupa grudava, a chuva escorria pelo rosto dos dois, e no fim, como no caderno, a roupa ficou jogada na grama.

Na terça-feira seguinte, eu liguei para ela no trabalho.

— Inventa uma reunião externa às três da tarde.

— Por quê?

— Porque eu vou te buscar.

Levei a Camila para um motel na estrada, numa terça à tarde. Ela ria o caminho inteiro, dizendo que era loucura, que era errado, que alguém ia ver. No quarto, com espelho no teto e luz vermelha, ela parou de rir.

— Como você sabia? — ela perguntou, finalmente, deitada no meu peito.

— Sabia o quê?

— A cozinha. A chuva. O motel numa terça. Tudo que eu sempre quis.

Eu fiquei quieto. Ela levantou a cabeça e me olhou, desconfiada.

— Você achou o caderno.

— Achei. Na mudança.

Ela ficou vermelha como eu nunca tinha visto. Escondeu o rosto no travesseiro.

— Que vergonha. Que vergonha!

— Vergonha por quê? Foram as três semanas mais incríveis da minha vida.

— Você leu tudo?

— Li. E tenho uma pergunta.

— Qual?

— Por que você nunca me pediu?

Ela não tinha resposta. Hoje o caderno fica no criado-mudo, do lado da cama, aberto. Tem uma caneta presa no fecho. Ela continua escrevendo. Agora eu também escrevo. E a gente risca juntos, um por um.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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