O bombeiro
O alarme disparou às três da manhã. Eu acordei assustada, com aquele barulho estridente enchendo o apartamento, e desci as escadas correndo de camisola de seda, descalça, segurando o gato no colo. Na calçada, todos os moradores do prédio, de pijama, de toalha, de cueca, assustados, olhando para o décimo andar de onde saía uma fumaça preta.
Os bombeiros chegaram em cinco minutos. Um deles, enorme, de capacete e roupa amarela, veio até nós para pedir que nos afastássemos. Quando me viu de camisola, tremendo de frio, tirou a jaqueta pesada e colocou nos meus ombros.
— Está tudo bem, moça. É só um fogão que pegou fogo no 1004. Já estamos controlando.
— Obrigada.
— Qual é o nome do gato?
— Pimenta.
— Belo nome. Ela está assustada. Você também. Vai ficar tudo bem.
Ele voltou para dentro do prédio. Em meia hora, o fogo estava apagado e os moradores puderam voltar. Eu procurei o bombeiro para devolver a jaqueta, mas a equipe já estava indo embora. A jaqueta ficou comigo. Tinha um nome bordado no peito: Sgt. Rocha.
No dia seguinte, às seis da tarde, o interfone tocou.
— Oi, aqui é o Rocha. Do corpo de bombeiros. Acho que você está com a minha jaqueta.
Desci com a jaqueta dobrada. Ele estava na calçada, sem uniforme, de camiseta e calça jeans. Sem o capacete, ele era ainda mais bonito: cabelo raspado, olhos castanhos, sorriso tímido, braços que esticavam a manga da camiseta.
— Obrigado por guardar — ele disse, pegando a jaqueta.
— Obrigada por me emprestar.
— A Pimenta está bem?
— Está ótima. Dormiu o dia inteiro.
Ficamos em silêncio, sem saber o que dizer. Ele coçou a nuca.
— Eu estou de folga hoje. Será que você aceita um café?
O café virou jantar, o jantar virou uma caminhada pela praça e a caminhada terminou na porta do meu prédio às onze da noite.
— Eu subiria — ele disse. — Mas não quero que você pense que eu estou me aproveitando.
— Você salvou meu gato.
— O fogo nem chegou no seu andar.
— Mesmo assim. Sobe.
Ele subiu. A Pimenta foi direto se esfregar nas pernas dele, aprovando. Eu ofereci um vinho, ele aceitou. Na varanda, olhando a cidade, ele contou do trabalho, dos incêndios, dos resgates, do medo que ele nunca mostrava para ninguém.
— Você tem medo agora? — eu perguntei.
— Agora? De errar com você.
— Então não erra.
Ele não errou. O homem que entrava em prédios em chamas era delicado como quem segura algo frágil. Me pegou no colo como tinha pegado a jaqueta, com cuidado, e me levou até o quarto. E naquela noite, o único incêndio do prédio foi no meu apartamento, e ninguém chamou os bombeiros.
Hoje a jaqueta com o nome Sgt. Rocha fica pendurada no nosso armário. Às vezes eu uso. Só ela.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
