Noite de karaokê
Toda quinta a gente ia no karaokê japonês da Liberdade: eu, minhas duas amigas da faculdade e uma quantidade irresponsável de saquê. Naquela quinta, reparei num rapaz da mesa ao lado. Sozinho, com uma cerveja, assistindo a todo mundo cantar com um sorrisinho divertido. Alto, de óculos, camisa xadrez aberta sobre uma camiseta branca.
— Vai lá falar com ele — minha amiga disse.
— Eu não sei chegar em ninguém.
— Então faz ele chegar em você.
Eu tive uma ideia péssima. Coloquei meu nome na fila para cantar "Evidências", a música mais difícil e mais clichê do karaokê, e subi no palco decidida a cantar do pior jeito possível. Desafinei, errei a letra, gritei no refrão. O bar inteiro ria. E eu olhava para o rapaz da camisa xadrez.
No segundo refrão, ele levantou, subiu no palco, pegou o outro microfone e começou a cantar comigo. Afinado. Muito afinado. Com uma voz grave que fez o bar inteiro parar de rir e começar a aplaudir.
Terminamos a música de mãos dadas, os dois de frente um para o outro, cantando "e nessa loucura de dizer que não te quero" olhando nos olhos. O bar veio abaixo. Quando a música acabou, ele não soltou minha mão.
— Você canta mal de propósito ou é natural? — ele perguntou, no meu ouvido.
— De propósito. Era para você vir aqui.
Ele riu alto.
— Funcionou.
Ele sentou na nossa mesa. Minhas amigas, discretas como um caminhão, foram embora em meia hora, com a desculpa de que o metrô ia fechar. A gente ficou cantando dueto atrás de dueto, cada vez mais perto no sofá vermelho do karaokê, até o dono do bar começar a empilhar as cadeiras.
— Tem uma salinha privada lá em cima — ele disse. — Dá para alugar por hora.
— Para cantar?
— Também.
A salinha privada tinha um sofá de couro, uma TV enorme, luzes coloridas piscando e uma porta com tranca. Ele colocou uma música lenta, de um cantor japonês que nenhum de nós conhecia, e deixou tocando sem cantar. As luzes coloridas pintavam a pele dele de azul, de rosa, de verde. O microfone ficou esquecido no chão. O sofá de couro grudava nas pernas, e a gente descobriu que dava para fazer muito barulho numa sala com isolamento acústico de karaokê.
Saímos às três da manhã. O dono do bar nos olhou de cima a baixo e cobrou a hora da salinha com um sorriso.
— Cantaram bastante, né? — ele disse.
— A noite inteira — o rapaz respondeu, sério.
Hoje a gente vai ao karaokê toda quinta. Sempre cantamos "Evidências" juntos no palco. E sempre alugamos a salinha depois.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
