Noite de jogos
Era sábado e a gente estava em casa, de pijama, rolando o celular no sofá havia uma hora. Casados havia cinco anos, eu e o Thiago tínhamos caído naquela rotina de série, pizza e sono. Naquela tarde, numa loja do shopping, eu tinha comprado um baralho de perguntas para casais. Tirei da bolsa e joguei na mesinha de centro.
— O que é isso? — ele perguntou.
— Um jogo. Perguntas. Quem não responde, tira uma peça de roupa.
Ele largou o celular na hora.
— Pode dar as cartas.
As primeiras perguntas eram leves. "Qual foi a primeira coisa que você reparou em mim?" "Qual o lugar mais estranho onde você já pensou em mim?" A gente ria, respondia, se lembrava de coisas que tinha esquecido.
— O seu sorriso — ele respondeu. — E aquele vestido amarelo.
— No consultório do dentista — eu respondi. — Com a boca anestesiada.
Mas as cartas foram esquentando.
"Qual fantasia você nunca contou para o seu parceiro?"
O Thiago ficou vermelho. Olhou para a carta, olhou para mim, e tirou a camiseta.
— Prefiro não responder.
— Covarde.
— Próxima.
"Descreva o que você faria se tivesse cinco minutos sozinho com o seu parceiro num elevador."
Eu sorri, cheguei perto do ouvido dele e descrevi. Em detalhes. Ele ficou quieto um tempão.
— Acho que vou precisar de mais do que cinco minutos — ele disse.
— Isso não é resposta. É comentário.
"Qual parte do corpo do seu parceiro você mais gosta?"
— Essa é fácil — ele disse, e apontou. Eu dei risada e tirei a calça do pijama, porque a resposta tinha sido tão sem vergonha que ele merecia um prêmio.
— Isso não está nas regras!
— Agora está.
Na décima carta, ele estava só de cueca e eu só de calcinha e camiseta. A pergunta era: "Qual foi a melhor noite que vocês tiveram juntos?"
Ficamos em silêncio. Ele pegou a minha mão.
— A primeira noite no nosso apartamento. Sem móveis. Num colchão no chão da sala.
— Com a pizza fria e a janela sem cortina.
— Com a janela sem cortina — ele repetiu, rindo. — E o vizinho da frente acendeu a luz.
A gente ria e se olhava, e eu percebi que fazia muito tempo que a gente não se olhava assim.
— A gente pode superar aquela noite — eu disse.
— Você acha?
— Só tem um jeito de descobrir.
A última carta do baralho ficou sem ser lida. Ela continua lá, na mesinha de centro, virada para baixo. A gente nunca leu. Toda vez que alguém vai pegar, o outro tira uma peça de roupa, e o jogo recomeça.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
