Cabana na Serra da Mantiqueira
A ideia era passar um fim de semana desconectados. Eu e o Gustavo alugamos uma cabana de madeira no alto da Serra da Mantiqueira, perto de Gonçalves, sem televisão, sem Wi-Fi e com sinal de celular só se você subisse numa pedra a duzentos metros dali.
Chegamos na sexta à tarde. A cabana era perfeita: lareira de pedra, banheira de madeira na varanda com vista para o vale, uma cama enorme com edredom de pena e uma janela de vidro do chão ao teto. O Gustavo acendeu o fogo e eu abri o primeiro vinho.
No sábado de manhã, começou a chover. À tarde, a chuva virou tempestade. A estrada de terra que levava à cabana virou um rio de lama, e a dona da propriedade mandou um recado pelo único telefone fixo: "Não saiam até segunda. Tem comida na despensa."
— Presos — o Gustavo disse, com um sorriso maligno. — Dois dias. Só nós dois. Sem ter para onde fugir.
— Que tragédia — respondi, me jogando no sofá na frente da lareira.
A primeira coisa que fizemos foi trancar a porta, mesmo sabendo que ninguém ia aparecer. A segunda foi esquecer que existiam roupas. A lareira estalava, a chuva batia no vidro, e a gente se enroscou no tapete de pele sintética como se fosse a primeira vez. Depois na cama. Depois de novo no tapete, porque estava mais quentinho.
— Sabe o que eu quero fazer? — ele perguntou, no meio da tarde, olhando pela janela.
— O quê?
— Tomar banho na banheira da varanda. Na chuva.
— Você é louco. Está fazendo dez graus lá fora.
— A água está quente. E eu te esquento.
Ele encheu a banheira de madeira com água fervendo. Saímos correndo pela varanda, gritando com o frio, e mergulhamos na água quente com a chuva caindo nas nossas cabeças. O vapor subia e se misturava com a névoa do vale. Era a coisa mais absurda e mais gostosa que eu já tinha feito. Ele me puxou para o colo dele dentro da banheira, e a chuva fria nos ombros só fazia a água quente parecer mais quente.
— Se alguém aparecer agora... — eu ri.
— Só se for um urso. E ursos não existem na Mantiqueira.
Ficamos ali até os dedos enrugarem. À noite, jantamos macarrão com vinho na frente da lareira, enrolados no mesmo cobertor, e conversamos sobre o futuro como não fazíamos havia muito tempo.
Na segunda de manhã, a estrada secou e a dona da cabana veio nos buscar de caminhonete.
— Coitados, devem ter passado um tédio horrível presos aqui — ela disse.
O Gustavo me olhou e piscou. No caminho de volta, ele parou na beira da estrada, subiu na pedra do sinal de celular e reservou a mesma cabana para o próximo feriado. Na época das chuvas.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
