Hora do almoço
Dois filhos pequenos, um de três anos e uma de um ano e meio. Eu e o Leandro não dormíamos uma noite inteira havia dois anos. Nossa vida sexual tinha virado lenda, uma coisa que existia antes, como viagem internacional e cinema na estreia.
À noite, quando as crianças finalmente dormiam, a gente desmaiava no sofá. Nos fins de semana, sempre tinha avó em casa, festa infantil, pediatra. E toda vez que a gente tentava, alguém chorava no quarto ao lado.
Foi o Leandro quem teve a ideia, numa terça-feira, por mensagem:
"Almoço hoje? 12h. Te pego na porta do trabalho."
Achei que era um almoço mesmo. Desci, entrei no carro, e ele pegou o caminho contrário ao dos restaurantes.
— Aonde a gente vai?
— Almoçar. Mas não comida.
Ele parou num motel discreto na Marginal. Eu ri tanto que fiquei com falta de ar.
— Você está brincando.
— Uma hora e meia. É o tempo do seu almoço. Ninguém chorando no quarto ao lado. Ninguém pedindo água. Ninguém pedindo colo.
A suíte tinha hidromassagem, espelho no teto e uma cama redonda enorme. Eu me sentei na beira da cama, de roupa social, salto alto e crachá da empresa pendurado no pescoço, e comecei a rir de novo.
— Faz quanto tempo que a gente não vem num motel? — perguntei.
— Desde antes do casamento. Oito anos.
— A gente era tão jovem.
— A gente ainda é. — Ele tirou o crachá do meu pescoço, devagar. — Só esqueceu.
Foi como se uma represa tivesse rompido. Dois anos de vontade acumulada, de cansaço, de saudade de nós dois. A roupa social voou para todo lado. A hidromassagem encheu enquanto a gente estava ocupado na cama redonda, e transbordou um pouco, e ninguém ligou. Pela primeira vez em muito tempo, eu me senti mulher, e não só mãe.
Na volta, no carro, eu estava com o cabelo molhado e o rímel borrado. Retoquei a maquiagem no espelho do para-sol, rindo sozinha.
— Meu chefe vai perguntar onde eu almocei — eu disse.
— Fala que foi num lugar novo. Comida ótima. Atendimento excelente.
Voltei para o escritório às treze e trinta e um, um minuto atrasada. Minha colega da mesa ao lado me olhou desconfiada.
— Você está diferente. Fez alguma coisa no cabelo?
— Almocei bem.
Hoje é tradição. Toda terça, almoço. O motel já nos conhece pelo nome. A recepcionista sempre pergunta: "A suíte de sempre?" E as crianças nem desconfiam por que os pais chegam tão felizes nas terças à noite.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
