Fotografia proibida
O parque de diversões estava quase vazio naquela quinta-feira à noite. A gente tinha ido de brincadeira, depois de um jantar, para andar na roda-gigante como no tempo do namoro. Eu e o André, casados havia quatro anos, de mãos dadas, comendo algodão-doce e rindo como adolescentes.
No fim do parque, perto da saída, tinha uma cabine de fotos antiga. Daquelas que tiram quatro fotos seguidas e imprimem numa tira de papel. Cortina vermelha de veludo, banquinho, espelho na frente.
— Vamos? — ele perguntou.
— Vamos.
A cabine era minúscula. Eu sentei no colo dele, porque não cabiam os dois no banquinho. Ele colocou a moeda. O flash disparou.
A primeira foto foi normal. Os dois sorrindo para a câmera.
Na segunda, ele beijou minha bochecha.
Na terceira, eu virei e beijei ele.
A quarta foto saiu antes que a gente percebesse que o beijo tinha ficado sério. Muito sério. A tira de papel caiu no compartimento do lado de fora e a gente nem ouviu.
— Mais uma? — ele sussurrou.
— Mais uma.
Ele colocou outra moeda. O espaço era tão pequeno que qualquer movimento fazia a cabine balançar. A cortina vermelha de veludo fechava tudo. Lá fora, o barulho do parque, os gritos da montanha-russa, a música do carrossel. Lá dentro, só a gente e o flash, que disparava a cada poucos segundos, nos pegando de surpresa.
Na segunda tira, as fotos já não eram para mostrar para ninguém. Na terceira, a gente nem olhava mais para a câmera. A minha blusa estava meio aberta, o cabelo dele bagunçado, e o banquinho rangia toda vez que a gente se mexia.
— Alguém pode chegar — eu disse, ofegante, entre um flash e outro.
— O parque está vazio.
— Alguém pode ver as fotos.
— As fotos são nossas.
O funcionário do parque bateu na cabine às onze.
— Senhores, o parque vai fechar.
A gente saiu da cabine vermelhos, ajeitando a roupa, segurando o riso. O funcionário olhou para nós com uma cara de quem sabia exatamente o que tinha acontecido. No compartimento de fotos, quatro tiras de papel esperavam. Eu peguei todas antes que ele pudesse olhar.
No carro, a gente olhou as fotos à luz do celular. A primeira tira era fofa. A segunda, romântica. A terceira e a quarta, a gente olhou em silêncio, com o coração acelerado.
— Essas a gente não mostra para ninguém — ele disse.
— Nunca.
As tiras estão guardadas numa caixa de joias, no fundo do meu armário. De vez em quando, numa noite qualquer, eu tiro a caixa da gaveta e mostro para ele. E ele sempre pergunta a mesma coisa:
— Será que o parque ainda está aberto?
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
