Fim de semana sem celular
Eu e o Guilherme trabalhávamos demais. Ele era advogado, eu era gerente de banco. A gente acordava com o celular, almoçava com o celular, dormia com o celular embaixo do travesseiro. Uma noite, no jantar, eu percebi que a gente tinha ficado vinte minutos sentados à mesa sem trocar uma palavra, cada um respondendo e-mails.
— Gui — eu disse. — Quanto tempo faz que a gente não conversa?
Ele levantou os olhos do celular, assustado.
— A gente conversa todo dia.
— Sobre o quê?
Ele não soube responder.
No fim de semana seguinte, fizemos um pacto. Alugamos uma cabana numa fazenda em Cunha, sem sinal de celular, sem internet, sem televisão. Os celulares ficaram trancados no porta-luvas do carro. O relógio dele também. Quarenta e oito horas.
As primeiras horas foram estranhas. A gente ficava procurando o celular no bolso, por reflexo. Ele colocava a mão na mesa, onde o celular costumava ficar, e encontrava só a madeira. Eu olhava o pulso dele procurando um relógio que não estava lá.
— Que horas são? — eu perguntei, na primeira tarde.
— Não faço ideia.
— Isso me dá agonia.
— Isso me dá liberdade.
Na primeira noite, a gente cozinhou juntos no fogão a lenha. Ele cortava a cebola chorando, eu ria dele. A gente comeu na varanda, olhando as estrelas, que na fazenda eram tantas que pareciam de mentira. E conversou. Pela primeira vez em meses, de verdade. Sobre sonhos, sobre medos, sobre o que a gente queria da vida.
— Eu tinha esquecido como você é engraçada — ele disse.
— Eu tinha esquecido como você é bonito quando não está franzindo a testa para uma tela.
Na cabana, não tinha cortina na janela do quarto. A lua entrava inteira, iluminando a cama. Não tinha despertador para tocar às seis. Não tinha e-mail para responder antes de dormir. E pela primeira vez em muito tempo, a gente não teve pressa nenhuma. Sem relógio, a noite durou o quanto a gente quis que ela durasse.
No sábado, a gente acordou quando o sol bateu no rosto. Sem saber que horas eram. Ficou na cama até a fome ganhar. Tomou banho de cachoeira. Deitou na grama. Voltou para a cama. Almoçou no meio da tarde. Voltou para a cama de novo.
— A gente não faz isso desde o namoro — eu disse, deitada no peito dele, sem saber se era três da tarde ou seis.
— A gente não faz nada desde o namoro.
No domingo à tarde, quando abrimos o porta-luvas, os celulares estavam lá, mortos, sem bateria. Nenhum dos dois correu para carregar.
— Mais um dia? — ele perguntou.
— A gente trabalha amanhã.
— A gente pode faltar.
A gente faltou. E na terça. Ligamos do telefone fixo da fazenda dizendo que estávamos doentes. Não era mentira. Estávamos doentes de saudade de nós mesmos.
Hoje a gente faz esse pacto uma vez por mês. Os celulares vão para o porta-luvas. E toda vez, a gente volta um dia depois do combinado.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
