Fim de semana em Trancoso
O casamento estava por um fio. Doze anos juntos, duas filhas, uma rotina que tinha engolido tudo. A gente brigava por bobagem, dormia de costas um para o outro e passava semanas sem se tocar. A terapeuta de casal sugeriu uma viagem, só os dois. "Vocês precisam lembrar por que se escolheram."
Fomos para Trancoso. Uma pousada pequena, perto do Quadrado, com bangalôs de madeira e rede na varanda. Nos dois primeiros dias, foi estranho. A gente não sabia mais conversar sem as filhas no meio. Jantávamos em silêncio, olhando o celular.
No terceiro dia, o Marcos sugeriu uma coisa que me pegou de surpresa:
— Vamos na praia de noite. Igual na nossa primeira viagem, em Ubatuba.
Eu tinha esquecido Ubatuba. A gente tinha vinte e dois anos, um carro velho e nenhum dinheiro. Passamos a noite numa praia deserta, bebendo vinho de garrafão e fazendo planos para a vida inteira.
Fomos para a Praia dos Coqueiros, vazia, com a lua iluminando a areia branca. Ele levou uma canga, uma garrafa de vinho de verdade e uma caixinha de som. Colocou uma música antiga, a nossa música, e me estendeu a mão.
— Dança comigo?
Dançamos descalços na areia, desajeitados, rindo. E em algum momento, com a cabeça encostada no peito dele, eu comecei a chorar. Ele me abraçou mais forte e não perguntou nada.
— Eu sinto falta de você — eu disse, finalmente.
— Eu estou aqui. Sempre estive.
— Não. Eu sinto falta de você olhando para mim. Como antes.
Ele se afastou um pouco e segurou meu rosto com as duas mãos. Me olhou por um tempo longo, em silêncio, como não fazia havia anos.
— Você ainda é a mulher mais bonita que eu já vi — ele disse. — Eu só esqueci de te dizer.
O beijo foi lento, tímido no começo, como de dois desconhecidos. Depois foi lembrando. As mãos dele lembraram o caminho das minhas costas, da minha cintura. As minhas lembraram onde ele gostava de ser tocado. Deitamos na canga, debaixo da lua, e foi como em Ubatuba, mas melhor, porque agora a gente sabia exatamente o que fazer um com o outro.
Voltamos para a pousada de madrugada, cheios de areia, de mãos dadas. Dormimos abraçados, de frente um para o outro, pela primeira vez em muito tempo.
O casamento não se resolveu numa noite. Mas naquela praia a gente lembrou por que se escolheu. Na volta, combinamos uma regra: uma noite por mês, só nossa, sem filhas e sem celular. Já faz um ano. A gente não falhou nenhuma vez.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
