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Duas cidades

19 de abril de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Romance

A gente se conheceu num congresso em Brasília. Ela era gaúcha, eu pernambucano. Três dias de palestras, dois jantares e uma noite que nenhum dos dois esqueceu. No aeroporto, na despedida, ela disse:

— Isso não vai dar certo. São três mil quilômetros.

— Três mil e duzentos — eu corrigi. — Eu pesquisei.

Ela riu. E a gente tentou.

Os primeiros meses foram de mensagens o dia inteiro. Bom dia, boa noite, fotos do almoço, áudios longos no caminho do trabalho. Videochamadas toda noite, às vezes até a bateria acabar. Ela me mostrava o Guaíba no pôr do sol. Eu mostrava o mar de Boa Viagem.

Uma vez por mês, alguém pegava um avião. Um mês eu ia para Porto Alegre, no outro ela vinha para Recife. Três dias, às vezes quatro, nunca mais que isso. E esses três dias eram o centro do mês inteiro.

No aeroporto, a gente sempre corria um para o outro. Ela pulava no meu colo, eu a girava, e as pessoas olhavam e sorriam. A gente não ia direto para casa. Nunca. Ela tinha descoberto um motel no caminho do aeroporto de Porto Alegre e eu tinha descoberto um no caminho do aeroporto do Recife.

— A gente é ridículo — ela dizia, rindo, no quarto do motel.

— A gente tem um mês de saudade para resolver em três dias.

— Então para de falar.

Nos três dias, a gente quase não saía. Pedia comida, tomava banho junto, dormia abraçado, acordava abraçado. Eu conhecia cada centímetro dela de cor, e mesmo assim, a cada visita, era como descobrir de novo. Ela dizia que eu tinha cheiro de mar. Eu dizia que ela tinha cheiro de chimarrão.

E aí vinha a despedida. Sempre a pior parte. Ela chorava no aeroporto, eu fingia que não chorava. A gente se beijava no portão de embarque até a última chamada.

— Não vai dar certo — ela dizia, toda vez.

— Já está dando há dois anos.

No terceiro ano, numa visita a Recife, eu a levei para jantar num restaurante na beira do mar. No meio do jantar, ela ficou séria.

— Eu preciso te falar uma coisa.

Eu gelei.

— Eu pedi transferência no trabalho — ela disse. — Para o escritório do Recife. Saiu ontem.

Fiquei sem palavras.

— Você vai se mudar para cá?

— Se você quiser.

— Se eu quiser? Você está brincando?

— Não. Eu cansei de três mil e duzentos quilômetros. Eu quero zero.

Eu levantei da mesa, dei a volta, e a beijei na frente do restaurante inteiro. Depois tirei do bolso a caixinha que eu carregava fazia seis meses, esperando coragem.

— Eu ia te pedir em casamento hoje — eu disse. — E te pedir para vir morar aqui.

Ela olhou para a caixinha, olhou para mim e começou a rir e chorar ao mesmo tempo.

— A gente é ridículo.

— A gente é.

Naquela noite, não teve motel. Teve a minha casa, que agora seria nossa. E foi a primeira noite, em três anos, em que a gente não precisou contar as horas até a despedida.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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